O Fundo Monetário Internacional (FMI) está mais otimista com as maiores economias do mundo e mais pessimista com o Brasil. De acordo com as projeções divulgadas ontem, a economia brasileira, após viver uma recessão de 3,5% em 2016, vai crescer apenas 0,2% neste ano e 1,5% em 2018. Em outubro, a previsão para 2017 era de expansão de 0,5%. O FMI cita ainda a incerteza em torno do cenário global, pois não há muita clareza sobre as medidas econômicas que serão tomadas por Donald Trump, que assume a presidência dos Estados Unidos na sexta-feira.
As projeções do FMI são mais pessimistas para o Brasil que as de outros agentes econômicos. Na semana passada, o Banco Mundial estimou que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro crescerá 0,5% neste ano e 1,8% em 2018. Os analistas do mercado financeiro brasileiro, ouvidos semanalmente pela pesquisa Focus do Banco Central, esperam que a economia do país avance 0,5% neste ano e 2,2% em 2018. Há uma semana, as estimativas eram de 0,5% e 2,3%, respectivamente.
— No caso do Brasil, as razões (para o corte nas projeções) são que, em 2016, no terceiro e no quarto trimestres, o crescimento foi mais fraco que o esperado — afirmou Oya Celasun, chefe da divisão de Estudos Econômicos Mundiais do Fundo, em entrevista em Washington.
MEIRELLES: ‘RECESSÃO INACEITÁVEL’
Em Davos, onde participa do Fórum Econômico Mundial, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, admitiu que a mudança nas projeções do FMI para o Brasil este ano é decorrente da forte recessão do ano passado.
— É uma recessão que herdamos, que foi construída nos últimos anos. O FMI deixou claro que a menor previsão é porque a queda de 2016 foi maior do que se esperava — afirmou o ministro. — Mas no, primeiro trimestre, já vamos ver um crescimento. E esperamos que o último trimestre de 2017 apresente um crescimento de 2% em relação ao mesmo período de 2016.
Meirelles classificou a recessão econômica como “inaceitável” e, ao ser perguntado sobre o que diria para um trabalhador que está desempregado hoje, afirmou que o governo está trabalhando para reverter o cenário atual:
— É uma crise que herdamos. É uma recessão profunda, inaceitável, e estamos fazendo tudo para que o Brasil volte a crescer. Foi uma recessão decorrente de uma série de erros macroeconômicos. O que tem de ser feito está sendo feito. Está terminando.
Além do Brasil, a Argentina ajudou a puxar para baixo es projeções para a América Latina. No ano passado, o Fundo estima que a região tenha registrado uma recessão de 0,7% no ano passado. Já para 2017, a previsão passou de 1,6%, em outubro, para 1,2% agora. Essa redução se deve, principalmente, ao Brasil e ao México — cujas projeções sofreram um corte significativo pela expectativa com um possível efeito Trump.
Mas as estimativas para o crescimento americano subiram, assim como aquelas para as maiores economias do mundo: China, zona do euro, Japão e Reino Unido — que, este ano, terá de negociar sua saída da União Europeia. E, de acordo com o FMI, a recuperação parcial nos preços de algumas commodities (produtos básicos com cotação internacional, como petróleo, minério de ferro e soja) pode ajudar boa parte dos países em desenvolvimento.
“O panorama das economias de mercados emergentes e em desenvolvimento continua sendo muito mais diverso. A taxa de crescimento da China superou ligeiramente as expectativas graças a uma ininterrupta política de estímulo. Mas a atividade foi mais fraca que o esperado em alguns países de América Latina que estão atravessando uma recessão, como Argentina e Brasil, assim como na Turquia, cuja receita com turismo sofreu uma profunda contração”, afirmou o documento do FMI.
INFLUÊNCIA DAS ELEIÇÕES NOS EUA
O texto alerta, no entanto, que as incertezas globais cresceram, devido à eleição de Trump. Se, por um lado, a economia americana pode se beneficiar dos prometidos investimentos em infraestrutura, por outro os Estados Unidos podem ver alta em seu nível de endividamento, e medidas protecionistas, um dos pilares da campanha do republicano, podem afetar o comércio global.
“Existe uma ampla dispersão das possibilidades em torno das projeções, dada a incerteza que ronda a orientação das políticas do novo governo americano e suas ramificações internacionais”, afirmou o documento, ressaltando que, até a divulgação das novas estimativas, em abril, o cenário deverá estar mais claro. “Este prognóstico se baseia em supostas mudanças com as políticas adotadas pelo novo governo americano, com seus consequentes efeitos em escala internacional. Neste momento, a equipe técnica (do FMI) prevê certo estímulo fiscal a curto prazo e uma normalização menos gradual da política monetária.”
O economista-chefe do FMI, Maurice Obstfeld, disse esperar um desempenho melhor da economia global este ano. As projeções do organismo para o crescimento mundial ficaram estáveis para 2017 e 2018.
— Um ritmo mais rápido de expansão seria especialmente bem-vindo este ano: o crescimento global em 2016 foi o mais fraco desde 2008-2009, devido a um primeiro semestre desafiador, marcado inicialmente pela turbulência nos mercados financeiros mundiais. Começou a melhorar em meados do ano — explicou Obstfeld.
Ele ressalta as mudanças de cenário após a eleição presidencial nos EUA:
— Houve uma significativa reavaliação dos preços de ativos. Seus elementos mais notáveis foram um aumento acentuado das taxas de juros de longo prazo dos EUA, a apreciação do mercado de ações e maiores expectativas de inflação de longo prazo nas economias avançadas. Ao mesmo tempo, os mercados de ações dos países emergentes recuaram amplamente à medida que suas moedas se enfraqueceram. Colaboraram Martha Beck, enviada especial a Davos, e Juliana Garçon
O globo, n. 30479, 17/01/2017. Economia, p. 18