Título: Magnata será o rival de Putin
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Fonte: Correio Braziliense, 13/12/2011, Mundo, p. 17
Mikhail Prokhorov, oligarca da mineração: cosmopolita e culto
Um típico oligarca da era Boris Yeltsin, transformado em bilionário da indústria de mineração no período em que a Rússia fazia a transição do comunismo soviético para a economia de mercado, decidiu enfrentar o primeiro-ministro Vladimir Putin na eleição presidencial de março de 2012. "Tomei a decisão mais séria de minha vida", anunciou Mikhail Prokhorov, 46 anos, que ganhou celebridade por ter arrematado nos anos 1990 uma importante mineradora de níquel e ouro para vendê-la com grande lucro pouco antes de estourar a crise financeira de 2008.
Prokhorov investe na imagem pública de homem culto e cosmopolita para enfrentar o político mais popular do período pós-soviético, eleito para dois mandatos presidenciais com 70% dos votos e há três anos primeiro-ministro. Além de falar inglês com fluência, o bilionário aposta na aparência — desfila com elegância seus mais de 2m de altura — como contrapeso a um rival que ele próprio confessa admirar. Em um post recente no microblog Twitter, o pré-candidato fala de Putin como única opção política para o país: "Goste-se ou não, ele é o único capaz de manejar essa máquina estatal ineficaz". Apontado pela revista econômica Forbes como o dono da terceira maior fortuna da Rússia, avaliada em US$ 18 bilhões, Prokhorov tem na condição de "oligarca" justamente seu ponto fraco do ponto de vista eleitoral.
O anúncio do magnata coincide com as turbulências que se seguiram às eleições legislativas do último dia 4, em que o partido de Putin e do presidente Dmitri Medvedev manteve a maioria absoluta na Duma (Câmara baixa), embora perdendo terreno para a oposição. O resultado oficial foi prontamente contestado por partidos políticos e ativistas que organizaram uma série de manifestações nas principais cidades russas, culminando com uma marcha de dezenas de milhares de participantes em Moscou, no sábado — uma das maiores demonstrações políticas no país desde o fim da União Soviética, há 20 anos.
A despeito da contestação, o governo reiterou ontem que não cogita revisar a contagem, apesar de Medvedev ter afirmado pelo Facebook que ordenaria uma "verificação". "Mesmo se adicionarem todos os testemunhos (recolhidos pela oposição e por observadores internacionais), isso só corresponde a mais ou menos 0,5% do total de votos", declarou o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov. Uma missão de observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) relatou "sérias indicações de fraude nas urnas", mas o procurador-geral russo, Iuri Chaaka, respondeu que não vê "nenhuma base para a realização de novas eleições".
O partido de Medvedev, o Rússia Unida, fundado para apoiar Putin — embora o próprio premiê não seja filiado —, contra-atacou ontem colocando seus militantes nas ruas de Moscou para reafirmar apoio à dupla. Cerca de 25 mil manifestantes, segundo a polícia, exibiram cartazes e gritaram lemas como "Viva a Rússia!" e "Viva Putin!". Correspondentes da imprensa estrangeira afirmaram que o número de participantes teria sido nitidamente inferior ao da manifestação oposicionista de domingo, que teria reunido mais de 50 mil pessoas.