Tumulto na volta de Dirceu

Renato Alves

05/05/2017

 

 

CRISE NA REPÚBLICA » Ex-ministro chega a Brasília em meio a protestos de moradores e militantes que apoiaram o impeachment de Dilma. Policiais precisaram usar gás lacrimogêneo para dispersar as pessoas, que tentaram invadir a garagem do prédio onde ele vai morar com a mulher e a filha

 

 

Gritaria, bandeiraço, faixa e muita confusão. Um dos mais caros e tranquilos endereços de Brasília, o Sudoeste teve a rotina quebrada na noite de ontem. O motivo: a mudança do ex-ministro José Dirceu para o setor, distante 8km da Esplanada dos Ministérios. Ele chegou por volta das 21h30. E quase foi agredido. Policiais militares usaram gás lacrimogêneo para dispersar as pessoas, que invadiram a garagem do prédio residencial e ainda tentaram quebrar a portaria para alcançá-lo no elevador. Os agentes de segurança escoltaram o petista até o apartamento. Ele não quis dar entrevistar.

Dirceu agora vai morar com a mulher, Simone Patrícia Tristão Pereira, e a filha Maria Antônia, de 6 anos. Condenado na Lava-Jato e no mensalão, ele ganhou o direito de recorrer em liberdade. O ex-ministro estava preso desde agosto de 2016 em Curitiba e deixou o Paraná na quarta-feira. De lá, seguiu para Vinhedo (SP), onde jantou com amigos na noite de quarta. Ontem, veio de carro para Brasília. Com tornozeleira eletrônica, chegou em uma perua Kicks da Nissan de cor prata.

José Dirceu vai ocupar um dos apartamentos do Residencial Kopenhagen. Como todos os prédios residenciais do bairro, ele tem seis andares. O petista vai morar no último deles. A quadra não tem comércio, mas Dirceu cumprirá prisão em frente à comercial, dotada de bancos, supermercados, farmácias, restaurantes e lanchonetes. Mais cedo, amigos dele estiveram no imóvel, onde permaneceram cerca de duas horas. Nenhum quis dar entrevista.

 

Piscina

Preso na 17ª fase da Operação Lava-Jato, em agosto de 2016, José Dirceu teve a prisão preventiva revogada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na última segunda-feira. O ex-ministro foi condenado em duas ações penais relacionadas à Lava-Jato a mais de 30 anos de prisão por crimes como corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Dirceu vai usar tornozeleira e não poderá se encontrar ou conversar com outros investigados na Lava-Jato. Também está proibido de deixar o país. Na cobertura do prédio, há uma ampla e moderna área de lazer, com piscina, sauna, academia de ginástica, salão de festa e espaço gourmet. No térreo, existe um campo de futebol de grama sintética, um parquinho para crianças e área de convivência arborizada, com bancos de madeira.

 

“Tranquilidade”

Cantaria, fechamento de via, balão inflável, faixas, bandeiras, policiais militares fortemente armados, cavalaria. O sempre tranquilo Setor Sudoeste viveu uma tarde atípica. Cerca de 200 pessoas se manifestavam. Mais da metade, moradores. Eles desceram dos blocos residenciais após ouvirem a barulheira de ativistas, a maioria do Movimento vem pra Rua, que participou das manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Roussef (PT), em 2016.

O ato ganhou força por volta das 20h, quando ativistas deram início ao protesto barulhento. Eles entoavam gritos como “Supremo Tribunal, vergonha nacional”. Os manifestantes ainda levaram panelas e muitos vestiam camisetas nas cores verde e amarela, da Seleção Brasileira de futebol.

Após a tumultuada chegada de Dirceu, os manifestantes anunciaram uma vigília para tirar o sono dele na primeira noite livre do petista em Brasília. Além de faixas, cartazes e apitos, o grupo levou um balão inflável de 15m de altura, batizado de Petrolowiski, com a imagem do ministro Ricardo Lewandowski, do STF. Até a tarde de ontem, os ativistas e o boneco estavam na Praça dos Três Poderes, em frente ao STF.

 

 

Correio braziliense, n. 19670, 04/05/2017. Política, p. 4.