Fogueiras acesas no caminho de Temer

Paulo de Tarso Lyra

31/05/2017

 

 

REPÚBLICA EM TRANSE » Como um bombeiro em várias frentes, presidente tenta ganhar algum fôlego com os resultados da economia e na tramitação das reformas e, assim, chegar menos combalido ao julgamento no Tribunal Superior Eleitoral, previsto para a próxima semana

 

 

A escalação do ministro da Justiça Torquato Jardim, para reverter um resultado desfavorável no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), uma conversa estratégica com Fernando Henrique Cardoso na segunda-feira, em São Paulo, a falta de um nome natural de consenso em uma eventual eleição indireta e os sinais de espera emitidos pelo mercado financeiro colocaram a crise política no modo de espera. O presidente Michel Temer ainda corre riscos de ter a chapa cassada pelo TSE, ou de se ver mergulhado em um vendaval caso o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) resolva fazer delação premiada. Mas, na avaliação de analistas políticos e econômicos, as chances de sobrevivência do governo aumentaram.

O bombeiro Temer vai ganhando tempo na tentativa de escapar da queda. “Ele agora pelo menos tem um paraquedas”, resumiu um tucano. Para tentar conter a rebeldia de seu aliado preferencial na coalização governista, o presidente encontrou-se na segunda-feira, em São Paulo, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente nacional da legenda, senador Tasso Jereissati (CE), em busca de caminhos para a crise atual. Tasso, inclusive, é o nome preferencial do PSDB em caso de eleição indireta.

Ontem, durante o Fórum Investimentos Brazil 2017, o discurso dos tucanos foi mais ameno, conclamando os empresários presentes a acreditar no Brasil. O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, projetou, inclusive, a política a longo prazo. “Senhor Presidente, o senhor entregará, em 1º de janeiro de 2019, ao seu sucessor um país muito melhor do que o que recebeu”, disse ele. A intervenção foi entendida pelos presentes como um sinal de que o PSDB não vai ajudar a incendiar o atual momento de instabilidade vivido pelo Brasil.

Se o PSDB arrefecer na pressão pelas mudanças, o DEM tende a dar uma pausa também nas críticas. “As pessoas estão de saco cheio de viver em um país em crise”, cravou o deputado Pauderney Avelino (AM). “Elas querem estabilidade, a volta dos empregos, as reformas, os investimentos. E Temer estava conseguindo trazer isso de volta”, completou Pauderney.

O cenário otimista, contudo, ainda impõe riscos sérios. Daqui a uma semana, será retomado o julgamento da cassação de chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Antes da divulgação da delação premiada do empresário Joesley Batista, era dada como certa a absolvição de Temer no processo de cassação da chapa. A crise política transformou o julgamento em incerteza.

A nomeação de Torquato Jardim para o Ministério da Justiça, após uma longa entrevista dada por ele ao Correio, pode servir para que o entendimento anterior seja retomado. “Mais do que um pedido de vista, o que o presidente Temer precisa para respirar aliviado é uma vitória no TSE. Se isso acontecer, ele vai conseguir esfriar o impacto do processo no Supremo por obstrução de Justiça”, garantiu um prefeito de um partido aliado. Para isso, segundo esse dirigente municipal, Torquato foi escalado. E o tempo de ação é curto – e incerto. O novo ministro da Justiça toma posse hoje e o julgamento será retomado na próxima terça, dia 6.

Do ponto de vista jurídico, há o temor ainda sobre uma possível delação do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR). Com a recusa do ex-ministro da Justiça Osmar Serraglio de assumir o ministério da Transparência, este reassume o mandato de deputado, e, com isso, Loures volta a ser suplente. Perde a imunidade, mas não o foro, já que o processo ao qual ele responde está atrelado ao presidente Michel Temer e, consequentemente, tramita no STF.

No campo econômico, o governo também busca respirar. A bolsa não derreteu mais e o preço do dólar estabilizou-se. Ontem, em um acordo com a oposição, foi lido o relatório da reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). A votação do texto-base ficou para a próxima terça-feira. Antes de ir para o plenário, contudo, o texto ainda precisa ser analisado pelas comissões de Assuntos Sociais e de Constituição e Justiça. “Na verdade, as reformas, assim como as crises, estão andando de lado. Aprovar propostas em comissões, nas quais o governo sempre tem maioria, até a ex-presidente Dilma conseguia”, afirmou o analista político da XP Investimentos, Richard Back.

“O governo vai conseguir mostrar força, de fato, se conseguir impedir que a reforma trabalhista sofra alterações, transferindo para uma medida provisória as propostas de emendas ao texto. E se conseguir fazer andar a reforma da Previdência na Câmara. Até lá, o mercado segue em compasso de espera”, completou Back.

 

 

Correio braziliense, n. 19727, 31/05/2017. Política, p. 2.