Título: Superavit tende a virar pó
Autor: Ribas, Sílvio
Fonte: Correio Braziliense, 28/12/2011, Economia, p. 8
Com o recuo no preço das matérias-primas no exterior em 2012, o saldo da balança comercial pode encolher 88,7%, estima a AEB SÍLVIO RIBAS
O avanço da crise mundial vai atingir em cheio o saldo da balança comercial em 2012 e criará dificuldades adicionais para o governo conter o deficit nas contas externas do país. A inversão da tendência de saldos positivos crescentes deverá ocorrer por conta do recuo nos preços internacionais das matérias-primas agrícolas e minerais, influenciadas por uma procura menor da China, maior comprador global desses produtos. Cálculos da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) apontam uma queda de 7,2% nas exportações brasileiras no ano que vem.
Se confirmadas as projeções, o país fechará 2012 com um saldo em vendas externas de US$ 236,58 bilhões, bem abaixo dos US$ 254,97 bilhões esperados para 2011. Na mão inversa, as importações continuarão em alta, atingindo US$ 233,54 bilhões, ou 2,4% a mais que os US$ 228,15 bilhões previstos para este ano. Com esses números, o superavit do ano que vem, segundo a AEB, será de apenas US$ 3,04 bilhões — um tombo de 88,7% em relação ao de 2011.
"Começaremos o ano sob o efeito de uma maior exposição às vendas para a China, da variação dos preços de produtos básicos, como soja e minério de ferro, e da perspectiva de menos exportações para a Europa em crise", disse o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro. A seu ver, a economia chinesa é a grande incógnita de 2012 para o comércio exterior brasileiro, sobretudo em razão de seu peso sobre as cotações dos principais produtos exportados pelo país. "Perdemos a oportunidade de evitar a perigosa dependência das trocas com nosso principal parceiro comercial, virando o jogo a nosso favor. A bola está hoje com os chineses, que não aceitam negociar compensações", avaliou.
Vinculação
As commodities, produtos básicos cotados no exterior, representam 70% das exportações brasileiras. Sobre essa parcela da pauta, o governo não tem influência nos volumes nem nos preços. Na avaliação da AEB, as importações, constituídas em mais de 80% por manufaturados, poderão ser impactadas pela crise externa, mas apenas superficialmente, considerando que a equipe econômica está adotando medidas fiscais e monetárias para manter a economia aquecida.
Dados divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) revelam que, no acumulado do ano, a balança comercial atingiu saldo de US$ 26,84 bilhões, 43,1% a mais que o apurado no mesmo período de 2010. As exportações alcançaram US$ 250,33 bilhões, alta de 26,4%, e as importações subiram 24,7%, para US$ 223,48 bilhões.
Para Welber Barral, consultor e ex-secretário de Comércio Exterior, o cenário é preocupante, mas menos trágico que o desenhado pela AEB. Ele reconhece os riscos da maior vinculação das exportações ao apetite chinês e da evolução das importações, mas espera que o resultado da balança deste ano se repita em 2012. "O valor das commodities tende a cair, mas não muito, porque serão sustentadas mais pelo consumo crescente de países emergentes do que por especuladores", avaliou. Mas admitiu que, diante do aprofundamento da crise europeia, depender só de um país (no caso, a China) deixou o quadro mais arriscado para o Brasil.
Têxteis
Castro acredita que o atual patamar de câmbio garante alta nas importações de manufaturados e cobrou mais ações de defesa comercial do governo. Não por acaso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ontem que o governo vai mudar o regime tributário das importações de têxteis. A alíquota dará lugar a um valor fixo em reais. "Tem terno que chega por US$ 1,50. Isso não paga nem o botão", disse Mantega, em São Paulo, onde recebeu uma medalha de honra ao mérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). O governo pedirá à Organização Mundial do Comércio (OMC) que a medida se torne uma salvaguarda por 10 anos.
Peso das commodities
Estimativas reforçam dependência de itens primários no comércio internacional
Exportações (em US$ bilhões)
Produtos 2012 2011 Variação (em %) Básicos 107,5 121,1 - 11,2 Manufaturas 123,7 128,5 - 3,7 Outros 5,3 5,4 - 3,3 Total 236,6 255,0 - 7,2
Importações (em US$ bilhões)
Produtos 2012 2011 Variação (em %) Bens de capital 49,9 48,2 3,6 Matérias-primas 104,3 102,6 1,7 Bens de consumo 44,4 40,4 9,9 Combustíveis 34,9 36,9 -5,6 Total 233,5 228,1 2,4
Superavit (em US$ bilhões)
2012 2011 Variação (em %) 3,0 26,8 - 88,7
-------------------------------------------------------------------------------- adicionada no sistema em: 28/12/2011 02:28