Título: América Latina desacelera
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Fonte: Correio Braziliense, 28/12/2011, Economia, p. 10

A instabilidade internacional obrigará a região a pisar no freio. Dados do FMI que apontam expansão de 4% do PIB em 2012 serão revisados para baixo em janeiro. Para o Banco Goldman Sachs, o crescimento não irá além de 3,2%

Diante dos estragos produzidos pela crise na Europa e nos Estados Unidos, a América Latina se prepara para enfrentar uma desaceleração de sua economia em 2012, com um crescimento revisado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para 4%. O organismo reviu várias vezes para baixo suas previsões econômicas para a região e, em seu último relatório, projetou um crescimento menor, considerando ainda uma expansão de 4,5% em 2011. Mas o próprio Fundo admite que os números estão otimistas e que novas revisões, mais pessimistas, serão feitas em breve. O mercado já aposta em alta menor. O Banco Goldman Sachs, por exemplo, vê expansão de apenas 3,2% para o continente no próximo ano.

"Esse é ainda um crescimento (4% para a América Latina) respeitável, principalmente se levarmos em conta a volatilidade global nos mercados financeiros", disse Charles Kramer, diretor da divisão de estudos para a região do FMI. "As coisas estão se movendo tão rapidamente que é difícil dizer como estarão ao fim de janeiro", acrescentou ele. Mas a desaceleração poderá ser ainda maior que a previsão atual. Kramer afirmou que a estimativa para 2012 deve ser novamente revisada para baixo em janeiro.

Analistas de mercado, no entanto, dizem que a América Latina se mantém relativamente bem com relação aos países ricos. "A região é bastante flexível e, em alguns pontos, está mais forte que antes da quebra do (banco americano) Lehman Brothers (em 2008, que marcou o início de uma crise financeira internacional)", disse Luis Cubeddu, subdiretor da divisão de estudos para América Latina do FMI.

Risco asiático Ele destacou as armas do continente para vencer a crise, como os altos níveis de reservas internacionais, demanda interna, crédito e vendas, além do baixo endividamento público de curto prazo. "Apesar da melhor situação da região, ela está inserida num mundo mais complicado e, por isso, a maioria dos riscos estão vindo de fora", disse Augusto De la Torre, economista-chefe para América Latina e Caribe do Banco Mundial. Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, afirmou recentemente que o desafio para a região é manter o crescimento em um ambiente de alta volatilidade.

Segundo o FMI, os países latino-americanos com estreita relação com os Estados Unidos e com a Europa terão uma desaceleração econômica mais forte, com uma diminuição do comércio, remessas e fluxo de turismo. Especialistas alertam ainda para o fato de que a recessão dos países ricos ameaça desacelerar as economias emergentes da Ásia, que são grandes compradores de matérias-primas latino-americanas, derrubando os preços desses produtos. "Uma queda no consumo chinês de matérias-primas teria um impacto muito grande na América Latina", alertou De la Torre.

De acordo com o banco Goldman Sachs, no entanto, os preços das matérias-primas devem resistir em 2012. "Restrições na oferta em mercados importantes provavelmente compensarão uma eventual queda na demanda", disse a instituição no fim de novembro. "Os países emergentes se recuperaram rapidamente e vigorosamente da crise de 2008 e, em 2011, esbarraram em questões normais a esse crescimento", acrescentou o economista do Banco Mundial.

Dívida dos EUA no limite Pouco menos de um ano após o exaustivo debate do teto da dívida que colocou o governo de Barack Obama contra a parede, o endividamento dos Estados Unidos voltará a se aproximar do limite autorizado pelo Congresso na primeira semana de janeiro, informou ontem o Departamento do Tesouro norte-americano. O atual teto alcançará US$ 15,2 trilhões. O governo pedirá ao Legislativo um incremento de US$ 1,2 trilhão sobre esse limite. Mas é pouco provável que haja novo confronto entre democratas e republicanos, já que o Congresso havia concordado em autorizar os aumentos por etapas.