Título: Relação complicada
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Fonte: Correio Braziliense, 17/12/2011, Economia, p. 21
Paris — A crise na União Europeia (UE) está azedando as relações entre o Reino Unido e a França, rivais históricos que vinham se entendendo razoavelmente bem nos governos conservadores do britânico David Cameron e do francês Nicolas Sarkozy. Nos últimos dias, o contato entre os dois tem sido tenso, com acusações de ambas as partes e estocadas às vezes nem tão sutis.
Representantes da administração instalada em Paris reclamam da recusa de Cameron em aceitar os termos do acordo para uma união fiscal no bloco. Enquanto isso, em Londres, multiplicam-se as queixas contra a leniência dos países no continente.
"A situação da Grã-Bretanha é hoje muito preocupante e, do ponto de vista econômico, é preferível ser francês do que britânico", disse o ministro francês de Finanças, François Baroin, num momento em que a França corre o risco de perder sua nota AAA, a melhor possível para as agências de classificação financeira. Na véspera, o primeiro-ministro François Fillon já havia dito que "os amigos britânicos estão ainda mais endividados que nós e possuem um deficit mais alto. E as agências de classificação parecem não se dar conta disso", afirmou, causando mal-estar do outro lado do Canal da Mancha.
O clima ficou ruim de vez quando, na quinta-feira, o presidente do Banco Central da França, Christian Noyer, solicitou às agências que rebaixassem a nota do Reino Unido antes de reduzir a dos países da Zona do Euro — os britânicos fazem parte da UE, mas não adotaram a moeda comum. O governo inglês voltou a rebater essas críticas ontem, dizendo que seu sólido plano de recuperação foi aprovado por várias organizações internacionais e irá eliminar quase todo o deficit público em cinco ou seis anos. A imprensa britânica considerou escandalosas as declarações francesas.
Insatisfação O vice-primeiro-ministro britânico, o liberal-democrata Nick Clegg, expressou ontem ao primeiro-ministro francês, François Fillon, sua insatisfação com relação ao que chamou de "inaceitável comentário" feito por Fillon sobre a situação econômica do Reino Unido. Segundo um comunicado, Clegg pediu a Fillon, que ligou para ele do Rio de Janeiro, para que os ânimos se acalmassem. "Fillon declarou claramente que não tinha a intenção de questionar a posição britânica, mas sim de enfatizar o fato de que as agências de classificação parecem mais preocupadas com a governança econômica que com o nível dos deficits", ressaltou a nota.