Título: Divisão entre grevistas
Autor: Hessel, Rosana
Fonte: Correio Braziliense, 21/12/2011, Economia, p. 14
Dois sindicatos ligados à Força Sindical aceitam a proposta de reajuste e abandonam paralisação em aeroportos
O governo aposta no racha entre os sindicatos dos trabalhadores do setor aéreo para esvaziar a greve da categoria, prevista para começar às 23h de amanhã. Duas agremiações ligadas à Força Sindical no Rio de Janeiro e no Amazonas aceitaram a proposta do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), de reajuste de 6,17%, e suspenderam a greve. No entanto, as entidades filiadas à Central Única dos Trabalhadores (CUT) decidiram manter a paralisação.
A ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, garantiu que "não haverá apagão aéreo" por causa da greve dos funcionários do setor de aviação. Ao visitar ontem o senador José Sarney (PMDB-AP), no Congresso Nacional, ela disse que confia nas previsões do Secretário de Aviação Civil (SAC), Wagner Bittencourt, sobre o empenho das companhias em impedir a paralisação, pois não há por que os passageiros serem submetidos ao caos às vésperas do Natal. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a SAC divulgaram nota informando que acompanham as negociações e acreditam no bom senso de trabalhadores e empresas para que a população não seja prejudicada.
Se a adesão à greve for expressiva, o sindicato patronal informou que as companhias aéreas colocarão em prática o plano de contingência acordado com as autoridades, para diminuir os transtornos nos aeroportos. Procurada, a Infraero não se pronunciou. Na segunda-feira, os aeronautas (profissionais de bordo) e aeroviários (trabalhadores de terra) rejeitaram, em audiência no Tribunal Superior do Trabalho (TST), a proposta de aumento de 6,17% feita pelos empregadores e insistiram na correção de pelo menos 7%, abrindo mão dos 10% iniciais. Eles prometem manter somente 20% do efetivo trabalhando.
"Diante da proposta dos patrões, decidimos pela greve por tempo indeterminado. Com isso, os passageiros serão muito prejudicados, principalmente aqueles que utilizarem grandes aeroportos, como os de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro", disse o presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Gelson Fochesato. Ele alertou para o efeito dominó que os problemas nesses terminais podem gerar. "Por isso, todos podem ser prejudicados."
A presidente do Sindicato Nacional dos Aeroviários, Selma Balbino, reforçou que o objetivo da categoria é conseguir o reajuste em tempo hábil para que o passageiro sofra menos transtornos. "Em princípio, esperamos que a greve dure apenas 24h e que consigamos negociar. Seria o ideal", destacou.
A Federação Nacional dos Trabalhadores em Aviação Civil (Fentac/CUT) divulgou nota na noite de ontem confirmando a greve de amanhã. "Lamentamos o fato de dois sindicatos ligados à Força Sindical terem aceitado a proposta do Snea, com índice de reajuste igual à inflação, sem aumento real para os trabalhadores dessas bases. Consideramos a decisão um equívoco", assinalou. Segundo a Fentac, os sindicatos cutistas do setor aéreo representam 100% dos aeronautas e cerca de 80% dos aeroviários.
Preocupação Com o fim de ano é o período de maior fluxo de pessoas nos aeroportos, muitos temem a repetição do caos de 2006, 2007 e do ano passado. A servidora pública Ilza Ávila Ribeiro, 61 anos, espera pelo pior. "Viajei em dezembro do ano passado e passei maus bocados. Tive de esperar mais de 11 horas no terminal, sentada no chão, sem banho e comida", contou. Ilza foi para o Rio de Janeiro ontem e retorna a Brasília na próxima semana. "Estou com medo de, na volta, passar por todos os problemas de novo", comentou.
Cláudia Netto e a filha Eduarda embarcaram ontem para Campinas (SP), onde passarão o Natal, e voltarão no próximo dia 28. "No ano passado, fiquei cerca de cinco horas em Viracopos. Tomara que a situação não se repita. Tive sorte de marcar a passagem para hoje (ontem), porque depois será complicado viajar", afirmou Cláudia, bastante apreensiva. O estudante Guilherme Pinheiro, 20 anos, não está satisfeito com a ameaça de greve. Ele embarcou ontem para Seatle, nos Estados Unidos. "Greve nesta época do ano é muito problemático", criticou. "Se essa greve acontecer, mais uma vez, o maior prejudicado será o cidadão brasileiro", emendou o advogado e professor de direito da Universidade Mackenzie Renato Poltronieri.