Título: Mais alimentos à mesa
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Fonte: Correio Braziliense, 03/01/2012, Economia, p. 9

Aumento no salário mínimo deve ser revertido para a compra de comida e material de limpeza, além do pagamento de dívidas. Trabalhadores ainda estão insatisfeitos, mas o comércio espera melhora nas vendas

Para 47,6 milhões de brasileiros que recebem um salário mínimo, o ano começou com uma boa notícia: um reajuste de 14,13%. Serão R$ 77 a mais, elevando a renda desses trabalhadores e aposentados de R$ 545 para R$ 622. O valor já está em vigor, mas só deve ser depositado no início de fevereiro. Na ponta do lápis, o ganho possibilitará a compra de mais gêneros de primeira necessidade, principalmente alimentos e material de limpeza. A quitação de dívidas também deve ser uma das prioridades, pois o início do ano carrega o peso de contas adicionais, como impostos e material escolar. O aposentado Francisco Campos, 62 anos, e a mulher, Terezinha Ermínio da Conceição, 61, acreditam que a elevação do piso salarial vai deixar a mesa um pouco mais farta. Campos recebe dois mínimos de aposentadoria, com a qual sustenta seis pessoas. "Gasto mais de um salário mínimo com alimentação. O restante vai para as contas de luz, água e telefone. Sobra pouquíssimo para uma roupa e outras coisas", disse Campos. O Correio acompanhou as compras do mês feitas pelo casal. "Isso é apenas o essencial. Carne e frutas a gente compra quase toda semana", observou Terezinha. "Mas eu só consigo comprar carne de segunda. Melhor que isso é muito caro", emendou o marido.

Durante uma tarde no supermercado, o casal desembolsou cerca de R$ 400 com arroz, feijão, leite, bolachas, salsichas, produtos de limpeza e outros itens. Depois, montou um carrinho com o valor do aumento de R$ 77 para ver o que era possível comprar. Foram apenas produtos básicos, nada de luxo: 10kg de arroz, 2kg de feijão, 5kg de açúcar, 12 caixas de leite, 1kg de frango e duas dúzias de ovos. Tudo saiu a R$ 77,07. "Só deu isso?", questionou o aposentado. "O aumento que o governo deu é até bom, mas o custo de vida é alto demais e vai comer tudo o que a gente ganhou de reajuste. Imagina só pagar R$ 10 em um saco de arroz. O mínimo tinha de ser pelo menos R$ 1,5 mil se a gente calcular apenas o justo."

Nos cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), esse incremento injetará R$ 47 bilhões na economia, sobretudo em regiões mais pobres do Norte e do Nordeste, onde o funcionalismo municipal recebe o piso. O presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, Roque Pellizzaro, pondera que o novo valor será positivo para todos. Segundo ele, o reflexo poderá ser visto claramente no comércio. Nas estimativas da CNDL, apenas em fevereiro as vendas do varejo vão se expandir em 4% frente a igual mês do ano passado.

Novo ânimo

"As vendas vão crescer muito acima das expectativas que tínhamos para o segundo mês do ano", previu. Pellizzaro explicou que o incremento vai diminuir a defasagem entre o poder de compra do brasileiro e o custo de vida. O reajuste vai dar ainda novo ânimo para a economia, que está desacelerando desde meados do ano passado. "O consumidor vai reverter esse ganho em compras no comércio e quitação de dívidas. Na outra ponta, quem recebe comissão de vendas vai se beneficiar e também terá melhora nos rendimentos. É um círculo virtuoso." Para a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o ano vai ser positivo por dois fatores: salário mínimo maior e queda dos juros básicos da economia (Selic). "O empresário está confiante. O ano vai começar tímido, mas vai reagir. No varejo, teremos uma expansão acima do crescimento do país", disse Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da CNC e ex-diretor do Banco Central.

Ainda segundo ele, as contas públicas devem sentir algum impacto. Apenas a folha de pagamento da Previdência Social vai aumentar em R$ 19,8 bilhões. Porém, o contraponto virá da arrecadação. A estimativa é de que o recolhimento de tributos sobre o consumo cresça R$ 22,9 bilhões. "Se a economia evoluir bem, sem grandes efeitos da crise internacional, o país vai avançar sem problemas fiscais", afirmou Freitas.

""O empresário está confiante. O ano vai começar tímido, mas vai reagir. No varejo, teremos uma expansão acima do crescimento do país"" Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da CNC

No supermercado

O que dá para comprar com os R$ 77 a mais no salário mínimo

(Em R$)

Item Preço 10kg de arroz 20,00 2kg de feijão 8,60 5kg de açúcar 8,19 12 caixas de leite 25,28 1kg de frango 8,40 2 dúzias de ovos 6,60 Total 77,07