Título: IPCA acima da meta
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 06/01/2012, Economia, p. 10
A inflação deve ter estourado a meta oficial no ano passado pela primeira vez desde 2003, segundo pesquisa da agência Reuters com 22 economistas. A média das apostas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de dezembro foi de 0,55%, o que levaria o acumulado no ano para 6,56%, acima do teto estipulado pelo governo em 6,50%. As previsões oscilaram entre 0,49% e 0,56% para o resultado mensal. Em novembro, o indicador havia sido de 0,52%.
Para não estourar a meta, a inflação em dezembro precisa ser de, no máximo, 0,5%, já havia informado o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que divulga hoje o resultado. Um eventual descumprimento da meta vai constranger o governo no primeiro ano do mandato de Dilma Rousseff, com o Banco Central no meio de um processo de redução dos juros para estimular o crescimento. Ainda assim, o número deve ter pouca importância para o mercado, atento ao cenário de 2012.
Caso a inflação encerre 2011 acima da meta, o presidente do BC, Alexandre Tombini, terá que escrever uma carta aberta ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicando as razões e as medidas para resolver o problema. O BC, no entanto, tende a considerar apenas uma casa decimal no cálculo. Se o IPCA ficar em 6,54%, a autoridade monetária arredondará o número para 6,5% e considerará a meta cumprida. O desrespeito ao objetivo só viria a partir de 6,56%, com o arredondamento para 6,6%.
O fracasso em cumprir a meta, se confirmado, terá ocorrido principalmente por causa de resultados relativamente altos nos primeiros meses do ano. O principal vilão foi a subida nos preços dos alimentos, que pressionou também em dezembro. Após atingir um pico de 7,31% nos 12 meses acumulados em setembro, a maior taxa em seis anos, a inflação tem perdido o ritmo por causa da desaceleração econômica no país e no exterior.
Especulação Segundo o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, o preço da comida está sendo influenciado pela seca na Região Sul, com impacto em grãos como milho e soja, e pela previsão de chuvas no Sudeste. "Um dos efeitos mais claros dessa situação é a simples especulação sobre o que pode acontecer com os preços de alimentos. A sinalização não é positiva", disse.
A baixa recente da inflação acumulada tem sido usada pelo BC como justificativa para a redução dos juros básicos (Selic) nos últimos meses. A taxa já caiu de 12,5% em agosto para 11%, e analistas esperam que ela recue até 9,5% neste ano. A previsão do BC para a inflação em 2012 é de 4,7%. A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para a definição da Selic ocorre nos dias 17 e 18.
Cesta básica mais cara O valor da cesta básica subiu em 16 das 17 capitais brasileiras em 2011. A única exceção foi Natal (RN), onde houve queda de 3,38%. O novo preço é de R$ 212,36. A maior elevação foi registrada em Vitória (ES). No local, os alimentos básicos chegam a custar R$ 275,39 em dezembro, uma alta de 13,8% — em Brasília, R$ 247,88, com elevação de 6,08%. Para colocar os alimentos básicos na mesa, o trabalhador paulista teria que ganhar o equivalente a R$ 2.329,35, de acordo com a pesquisa nacional realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O valor é 4,27 vezes maior do que o mínimo em vigor no ano passado, de R$ 545. Entre os produtos que apresentaram maior alta, estão café e óleo de soja. A cotação do arroz e do feijão caiu em 16 capitais em 2011, se comparado a 2010.