Idiana Tomazelli
27/05/2017
Indicado como novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o economista Paulo Rabello de Castro afirmou em entrevista ao Estadão/Broadcast que sua principal missão à frente da instituição de fomento será ‘reanimar o setor produtivo brasileiro‘.
Rabello de Castro teceu, porém, elogios ao trabalho de sua antecessora, Maria Silvia Bastos Marques. ‘Vai ser difícil discordar da Maria Silvia em qualquer coisa que ela tenha feito, tamanha é minha admiração por ela‘, disse.
O novo presidente do BNDES se disse disposto a encarar ‘desafios espinhosos‘, como é o caso do crédito no Brasil. ‘Tenho a missão de reanimar o setor produtivo brasileiro, leia-se industrial principalmente. É uma missão dura, mas grandiosa‘, afirmou. Segundo Rabello de Castro, o setor industrial merece maior atenção, uma vez que o setor agrícola ‘está bem cuidado por seu próprio desempenho e estímulo de preços‘.
O economista, que até agora presidia o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), lembrou que fundou e atuou até o ano passado como diretor-presidente da SR Rating, agência classificadora de risco, o que lhe confere experiência na área. ‘Mais rigoroso que eu num olhar sobre crédito, impossível‘, disse.
Nos últimos meses, Maria Silvia tornara-se alvo de críticas de empresários e de integrantes do próprio governo por ter ‘travado o crédito‘. A maior pressão partia do ministro Moreira Franco, responsável pelo Programa de Parcerias de Investimento, que abrange concessões, privatizações e Parcerias Público-Privadas. Sem financiamento, o programa não deslancha.
‘Nenhum banqueiro pode ser criticado por ser rigoroso. Se essa crítica pesava sobre Maria Silvia, ela está de parabéns‘, disse Rabello de Castro.
Taxa de juros. O novo presidente do BNDES assume os trabalhos já na semana que vem, e a primeira ação deve ser uma reunião com os diretores da instituição. Rabello de Castro quer tomar pé de todos os projetos do banco, incluindo a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), que vai substituir a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). A nova TLP seguirá o juro pago nos títulos do governo conhecidos como NTN-B, atrelados à inflação.
Rabello de Castro estava em uma sala de conferências do IBGE, no centro do Rio, aguardando uma reunião virtual com representantes do Ministério do Planejamento para falar de novos projetos quando recebeu a ligação do presidente Michel Temer, pouco antes das 18 horas. Ele disse que ‘estranhou‘ a demora no início da reunião, e depois ficou sabendo que o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, estava no Palácio do Planalto. Rabello de Castro gravaria ainda uma mensagem de despedida para o público interno do IBGE, instituto que presidiu por quase um ano. ‘Sou ibegeano e serei sempre‘, disse.
- Críticas
No IBGE, Rabello colecionou polêmicas, como a provocada pela afirmação de que os técnicos do órgão faziam ‘análise de elevador’.
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Eliane Cantanhêde
Numa semana de tantas e más notícias, a última coisa que poderia acontecer ao presidente Michel Temer seria mais uma perda na equipe e exatamente no “dream team” da economia, distante das denúncias da Lava Jato. Mas aconteceu, com a queda da presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos.
Uma das raras mulheres num governo sempre acusado de “machista”, Maria Silvia compunha com Henrique Meirelles, da Fazenda, e Pedro Parente, da Petrobrás, o trio da economia que dava lustro, densidade e discurso para Temer.
Com seus ministros políticos acossados por denúncias, o presidente sempre podia contrapor com esse tripé elogiado dentro e fora do País. Ainda pode? Economista respeitada, com um currículo que passa pela presidência da CSN, Maria Silvia atravessou toda a sua curta passagem pelo BNDES sob tiroteio. Para Temer, em público e em privado, ela estava moralizando o banco. Para os críticos do setor privado, estava trancando cofres e projetos, anulando, assim, o papel do BNDES na retomada do crescimento e dos empregos.
Os motivos reais para a decisão de Maria Silvia ainda não estão claros, mas, para piorar, a agência Moody’s anunciou horas depois que colocou a nota do Brasil em observação negativa, o que vai minando, mais e mais, as já precárias condições de governabilidade do presidente, atingido pelas delações premiadas da JBS justamente quando comemorava sinais positivos na inflação, juros, desemprego e previsões de crescimento.
Com a queda, Temer encerrou a semana como começou: debaixo de pressões, ameaças e defecções, que praticamente esvaziaram o terceiro andar do Planalto, onde se aboletavam assessores que ajudavam pouco, mas prejudicam muito o governo numa hora vital.
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Empresários pedem retomada de financiamento
Empresários esperam que o novo presidente do BNDES, Paulo Rabello, retome projetos de financiamento, mas analistas defendem a limitação de recursos.
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, diz, em nota, que “o novo presidente do BNDES não pode perder a oportunidade de executar com celeridade os projetos de financiamento para a indústria e para a infraestrutura.” Segundo ele, esses investimentos são essenciais para ajudar a retomada do crescimento da economia brasileira. “O Brasil não pode parar.”
Já o presidente da Abiquim (representa a indústria química), Fernando Figueiredo, espera que o novo executivo “ajude a reconduzir o banco ao seu papel histórico, de fomentar o desenvolvimento social”, papel que, para ele, Maria Silva não vinha cumprindo.
Frederico D’Ávila, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), diz que o BNDES deve agir como instituição pública, que preserva o interesse público. “Como é acionista da JBS e contribuiu para a formação desse oligopsônio, o BNDES não pode deixar a situação ir por água abaixo, senão arrebenta com a cadeia inteira.”
O professor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Aloisio Araújo, porém, espera que o BNDES mantenha política mais rigorosa e promova um enxugamento. “Os empresários têm de saber que os recursos estão limitados”.
“A política da Maria Silva estava correta, em substituição ao que vinha sendo feito antes, com o excesso de subsídio a empresas eleitas”, diz Samuel Pessôa, do Ibre. O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Renato Fragelli, acredita que, ao reduzir o subsídio, ela “desagradou a burguesia nacional.”
Para José Luis Oreiro, economista da UnB, a saída de Maria Silva pode ser indicativo de que o chamado dream team, a equipe econômica de Michel Temer, pode estar se desfazendo. Ele lembra da pressão dentro do governo por parte de empresários para que flexibilizassem o crédito. “Talvez o aperto do BNDES tenha sido exagerado.”
O Estado de São Paulo, n.45147 , 27/05/2017. Economia, p. B4