Título: Muito além do serviço público
Autor: Amorim, Diego
Fonte: Correio Braziliense, 07/01/2012, Cidades, p. 31
Embora o DF tenha alcançado em 2011 o menor índice de desemprego da série histórica, o percentual se manteve acima da média nacional. Com o aumento da população, Brasília precisa diversificar sua economia e depender menos do funcionalismo
Brasília não é a capital das oportunidades para todos. Um contingente de 270 mil moradores do Distrito Federal e do Entorno ainda não foi contemplado por essa terra. É gente que espera uma chance há meses, anos ou mesmo décadas. Quanto mais tempo sem emprego, mais distante fica o sonho de conseguir um lugar no mercado. Alguns desistiram de procurar e sobrevivem com a ajuda de familiares, amigos ou graças a programas sociais. Outros dividem as longas horas vagas entre bicos, entrega de currículos e idas e vindas a agências do trabalhador.
O índice de desemprego recua desde 2003 no DF. No ano passado, alcançou o recorde de 11,9%, em novembro. O governo celebrou a menor taxa da série histórica, iniciada em 1992. Mas, mesmo com o resultado, o percentual se manteve acima da média nacional (9,7%) e deixou claro que a situação não é das melhores. Entre as sete regiões do país pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a proporção de desocupados em Brasília fica atrás somente de Recife (12,8%) e Salvador (15,5%), onde o desemprego é encarado como problema crônico.
A realidade do mercado de trabalho local, associada a um setor produtivo pouco diversificado, preocupa especialistas. Se o DF continuar tão dependente do serviço público para oferecer emprego a quem precisa, os brasilienses sentirão nos próximos anos as trágicas consequências desse cenário. Estimativas indicam que, em 10 anos, Brasília e os municípios vizinhos abrigarão 4,4 milhões de habitantes. Sem vaga para todo mundo, o avanço populacional pode coincidir com o aumento dos índices de criminalidade, como em outros centros urbanos.
Cenário pior A pressão exercida pelos moradores do Entorno, assunto recorrente desde o surgimento da capital, continua sem medidas concretas capazes de amenizá-la. Se as 10 principais cidades goianas vizinhas ao DF fossem levadas em conta, a taxa de desemprego da virtual área metropolitana saltaria para 14,6%, menor apenas que a de Salvador. As projeções (veja arte) foram feitas a pedido do Correio pelo diretor de Gestão de Informações da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan) e presidente do Instituto Brasiliense de Estudos da Economia Regional (Ibrase), Júlio Miragaya.
Enquanto os governos federal, do DF e de Goiás praticam um jogo de empurra, estudos reforçam exaustivamente a alternativa para melhorar a dinâmica do mercado de trabalho da região. "Se fixarmos a mão de obra nos locais de moradia das pessoas, diminuiremos a pressão sobre o DF e aumentaremos o leque de oportunidades para quem reside aqui", explica o presidente do Conselho Regional de Economia do DF (Corecon-DF), Jusçanio de Souza. A industrialização do Entorno se apresenta como a solução mais viável e urgente.
Há dois meses, Leonice Silva de Sousa, 31 anos, desembarcou na rodoviária de Águas Lindas, a 70km do centro de Brasília, vinda do interior do Maranhão. Mudou-se em busca de um emprego que ainda não encontrou. "Topo qualquer coisa", diz, desesperada. Ela trabalha desde os 12 anos, mas na carteira só constam as experiências como cozinheira de uma carvoaria e zeladora de uma escola. No maior supermercado da cidade goiana, não há mais vagas. "Se tiver alguma chance, vai ser no Plano (em Brasília)", completa Leonice, que não terminou os estudos e não tem cursos no currículo.
Quem paga as contas da casa da maranhense é o companheiro. Ele chegou ao Planalto Central três meses antes e teve um pouco mais de sorte: conseguiu uma oportunidade para trabalhar de pedreiro e, com a primeira quantia de dinheiro que juntou, pagou a passagem de Leonice. Agora, faz bicos de segunda a sábado para garantir o sustento do casal. "Essa história de chegar aos lugares e pedir emprego não funciona. Parece que eles têm medo da gente. Falam que vão ligar, mas o telefone nunca toca", desabafa a mulher, longe dos três filhos, que ficaram no Nordeste sob os cuidados da avó materna.
Leonice exemplifica o lado mais cruel do mercado de trabalho em Brasília e no Entorno. Os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) dos últimos 20 anos, divulgados no fim do ano passado, traçam um perfil detalhado dos desocupados na capital federal e evidenciam as desigualdades de acesso. Conquistar uma vaga é uma dura tarefa para negros, mulheres, jovens e moradores da periferia. As maiores taxas de desemprego estão relacionadas a pessoas com essas características. Quando, enfim, ganham uma oportunidade, recebem salários menores.
Área metropolitana Para os cálculos, foram considerados os seguintes municípios: Valparaíso de Goiás, Novo Gama, Cidade Ocidental, Luziânia, Santo Antônio do Descoberto, Alexânia, Águas Lindas, Padre Bernardo, Planaltina de Goiás e Formosa.