Leonencio Nossa e Lígia Formenti
20/05/2017
Em delação à Procuradoria- Geral da República (PGR), o diretor de Relações Institucionais e de Governo da JBS, Ricardo Saud, relatou, no último dia 7, que o grupo pagou R$ 80 milhões para a campanha do então candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves.
Principal braço direito de Joesley Batista, dono da JBS, nas negociações com políticos do governo ou da oposição, Saud não deu detalhes sobre a forma do repasse ao senador tucano afastado, mas disse que as “questões” eram na maioria das vezes “ilícitas”. O delator contou que Joesley sempre “correu” do candidato.
“Ele (Aécio) continuou pedindo mais dinheiro após a campanha”, relatou. Diante da insistência, ainda segundo Saud, o dono da JBS aceitou pagar R$ 2 milhões que o senador havia solicitado alegando que precisava pagar dois advogados. Saud ainda disse que pagava propina a intermediários de Eduardo Cunha, Altair Alves e Lúcio Funaro.
Saud ainda contou que um homem chamado “Fred” era o indicado por Aécio para receber o dinheiro. As notas eram guardadas em uma mochila preta. Ele relatou que, em uma das vezes, o enviado do senador voltou para Minas em um táxi. “Entregamos R$ 500 mil para o Fred, tudo em dinheiro vivo, em notas de R$ 100. Ele pegou o táxi e voltou para Belo Horizonte”, afirmou Saud. Segundo ele, o pagamento foi feito no dia 5 de abril deste ano em sua sala, no 3.º andar do prédio-sede da JBS em São Paulo.
“Fred”, segundo os relatos dos delatores e imagens de câmeras de segurança recuperadas pelos investigadores, é Frederico Pacheco de Medeiros, primo de Aécio que foi preso na quinta-feira. Em conversas gravadas, Medeiros se mostrou incomodado com a função e deixou claro que estava com receio de ser pego com dinheiro, contrariando a versão de Aécio de que os repasses seriam um empréstimo para pagar advogado.
Aécio é investigado em um inquérito com o presidente da República, Michel Temer, e o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) sob suspeita dos crimes de corrupção passiva, obstrução à Justiça e participação em organização criminosa.
A empresária Andrea Neves, irmã de Aécio, pediu R$ 40 milhões a Joesley, para a compra de um imóvel no Rio. A informação foi revelada por Joesley em seu depoimento à PGR. Ele disse que condicionou o pagamento à nomeação de um indicado seu para o comando da Vale, mas que a operação não se concretizou.
Andrea foi presa preventivamente na quinta-feira, na Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, por suspeita de intermediar pagamento da propina de R$ 2 milhões ao irmão.
Segundo um dos depoimentos de Joesley, Andrea cobrou os R$ 40 milhões para a compra de um apartamento. Nesse contexto, o delator explicou que pediu a Aécio a nomeação de Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobrás, para presidir a Vale.
O dono da JBS afirmou à PGR que, com a nomeação, resolveria “o problema dos R$ 40 milhões”. Mas Aécio, segundo ele, disse que já havia indicado outra pessoa, e ofereceu qualquer uma das outras diretorias da mineradora.
O tucano teria dito para o delator “esquecer” o pedido da irmã. Em seu depoimento, Joesley disse que Aécio teria pedido várias outras quantias.
Defesa. Por meio de nota, enviada por sua assessoria, Aécio disse que “são mentirosas as declarações feitas por Joesley Batista em suas delações’’.
____________________________________________________________________________________________
Daniel Bramatti e Pedro Venceslau
20/05/2017
A delação de Joesley Batista, do grupo JBS, citou o pagamento de R$ 6,4 milhões, via caixa 2, para a campanha presidencial do tucano José Serra, em 2010.
Desse total, R$ 6 milhões foram registrados com notas frias da empresa LRC Eventos e Promoções, “com a falsa venda de um camarote no Autódromo de Interlagos”, segundo a relato de Batista.
Não é a primeira vez que Serra e a sigla LRC aparecem juntos, em uma situação suspeita. Em 8 de outubro de 2010, cinco dias depois de o tucano se habilitar a enfrentar a petista Dilma Rousseff no segundo turno da eleição presidencial, a cúpula do PSDB assinou contrato de empréstimo com a LRC Agropecuária, do mesmo dono da LRC Eventos.
Segundo parecer do Tribunal Superior Eleitoral sobre as contas do partido, o empréstimo revelou indícios de uma “doação eleitoral não contabilizada”.
A operação chamou a atenção dos técnicos do TSE por ser atípica. Primeiro, o PSDB não fez o empréstimo com uma instituição financeira, mas com uma empresa do setor agrícola, cuja atividade principal é o cultivo de eucalipto. O contrato também foi mal redigido: apesar de ser o tomador do empréstimo, o PSDB aparece como emprestador do dinheiro. Além disso, foi assinado apenas pelo presidente do PSDB na época, Sérgio Guerra – e por ninguém da LRC.
Mas mais estranho ainda foi o caminho do dinheiro. Entre 8 e 11 de outubro de 2010, o PSDB recebeu quatro depósitos em sua conta, totalizando R$ 4,8 milhões do suposto contrato com a LRC. Mas metade dos recursos foi devolvida à empresa apenas duas semanas depois. Outra parcela foi paga em 2011, de forma irregular, segundo o TSE, já que recursos públicos do Fundo Partidário foram usados para tanto.
O relatório dos técnicos do TSE sobre as contas do PSDB em 2011 afirma: “Entende-se por irregular o pagamento de R$1.521.430,86 à empresa LRC Agropecuária Ltda com recursos do Fundo Partidário, visto que não foi comprovada a utilização desse recurso na manutenção das atividades partidárias (...), o que pode vir a caracterizar indício de doação não contabilizada em ano eleitoral.” Um dos donos da LRC, Luís Roberto Coutinho Nogueira, doou R$ 50 mil à campanha de Serra ao Senado, em 2014 – ano em que morreu.
Os técnicos do TSE observaram que, do ponto de vista legal, o contrato de empréstimo não tem validade, dada a ausência da assinatura de ambas as partes e o fato de o texto colocar o partido como emprestador e não como tomador dos recursos.
Observa ainda que “não consta local de assinatura do documento, apenas a data”.
Questionada, a assessoria de imprensa do PSDB divulgou em março a seguinte nota: “Pedidos de esclarecimento feitos pelo TSE aos partidos são rotineiros e, como sempre, o PSDB os prestará ao Tribunal no prazo legal. Trata-se de operação ocorrida no ano de 2010, portanto em outra gestão”. A assessoria de Serra disse que ele “jamais recebeu qualquer tipo de vantagens indevidas das empresas de Joesley Batista”. O Estado procurou contato com outro sócio da LRC Agropecuária, mas ele não foi localizado.
O Estado de São Paulo, n. 45140, 20/05/2017. Política, p. A11