Título: Enem: mais alunos querem rever nota
Autor: Filizola, Paula
Fonte: Correio Braziliense, 07/01/2012, Brasil, p. 8
Sete candidatos do Rio recorrem à Justiça para reexaminar a redação após aluno de São Paulo conseguir 880 pontos. MEC descarta novas alterações
O êxito do estudante paulista Michael Cerqueira de Oliveira, que, em decisão inédita da Justiça Federal, conseguiu reverter sua nota na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de anulada para 880 pontos, abriu precedente para outros candidatos tentarem o mesmo. No Rio de Janeiro, o advogado Diogo Rezende de Almeida representa sete estudantes que pleiteiam o direito de vista da prova. Desse total, três conseguiram ver suas redações corrigidas. Um não teve a nota alterada. Os outros aguardam decisão judicial. Mas, se depender do Ministério da Educação (MEC), o assunto está encerrado. Segundo a assessoria de comunicação da pasta, "a posição oficial do MEC se mantém inalterada e a única nota revista em função de ação judicial foi a de Michael Cerqueira de Oliveira".
No caso dos três estudantes cariocas que tiveram acesso aos textos, todos vestibulandos de medicina, as nota atribuídas estavam, segundo o advogado, aquém do perfil escolar deles. "Considero a impossibilidade da vista da prova arbitrário e inconstitucional", avalia o advogado Diogo Rezende. Aluno do tradicional colégio carioca Santo Agostinho, Gabriel Zaverucha afirmou não entender como pode ter tirado 9,5 na redação da Universidade Federal Fluminense (UFF), que valia 10, e 480 na redação do Enem, com mil como avaliação máxima. "Parece que ninguém leu o meu texto", critica.
A advogada Beatriz Portugal Gouvêa, responsável pela demanda de Michael, explica que a diferença do caso paulista é que a redação do menino foi anulada, apesar de não corresponder aos critérios de anulação previstos no edital — rabiscos, impropérios ou textos com menos de sete linhas. "Ele nos mostrou um rascunho da sua redação e não tinha nada disso", afirma. Segundo Beatriz, o aluno está satisfeito com o resultado, pois conseguirá fazer a inscrição em universidades federais pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), mas a escola Lourenço Castanho, em que ele estuda, ainda quer ver a prova. O prazo do Inep para apresentar a redação vence na próxima segunda-feira.
Para a Justiça Federal em São Paulo, a Procuradoria Federal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do MEC responsável pelo Enem, admitiu erro no processo de correção das provas. De acordo com nota divulgada, houve "ocorrência de erro material quando da correção das provas de alguns alunos participantes do Enem, dentre as quais a redação do próprio impetrante, que teve sua prova devidamente corrigida e a nota consequentemente alterada".
Falhas Um relato do professor de redação e coordenador do colégio carioca A a Z, Rafael Pinna, evidencia falhas no processo de correção das redações do Enem. Segundo ele, que integrou a banca em 2009, não há uma seleção para a escolha dos corretores nem treinamento suficiente para a banca, além de um sistema de pagamento por redação corrigida, que, em 2009, era de R$ 1. "Avaliamos em média 100 redações por dia, com um tempo superapertado. É um massacre. Nesse sistema, é difícil garantir que todos serão justos", argumenta. "Depois que o Enem ganhou esse formato, ficou ainda mais difícil cumprir prazos. É loteria", afirma.
O processo de correção do Enem — bem como de recrutamento de fiscais para a prova — é coordenado pelo consórcio Cespe/Cesgranrio. Nos vestibulares das universidades Federal e Estadual do Rio e da USP, por exemplo, os corretores são vinculados às institui-ções e recebem um valor fixo pelo trabalho realizado. "Toda faculdade séria é assim. É uma garantia", afirma Pinna.
Seleção aberta As inscrições para disputar uma das 108.552 vagas do Sisu, programa de seleção de estudantes para instituições federais e estaduais de ensino superior, começaram a zero hora de hoje e se encerram a meia-noite da próxima quinta-feira. Pelo sistema, os candidatos que fizeram o Enem em outubro de 2011 podem disputar vagas em 3.327 cursos de 95 instituições públicas de ensino superior. Não há oferta para o DF. A candidatura deve ser feita no site http://sisu.mec.gov.br.
"Avaliamos em média 100 redações por dia, com um tempo superapertado. É um massacre. Nesse sistema, é difícil garantir que todos serão justos"
Rafael Pinna, professor que participou da correção dos textos na edição do Enem de 2009