Título: A arma dos direitos
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 01/02/2012, Mundo, p. 12

Antes de ir ao encontro de Raúl e Fidel Castro, Dilma condena a politização do tema humanitário e desafia os Estados Unidos a "atirarem a primeira pedra"

Havana — A presidente Dilma Rousseff saiu ligeiramente do roteiro traçado logo no primeiro compromisso oficial de sua viagem a Cuba, na manhã de ontem, mas apenas para reafirmar que discussões e críticas públicas sobre a situação dos direitos humanos na ilha estão fora da agenda do governo brasileiro. "Vamos começar a falar sobre direitos humanos em todo o mundo? Começaremos a falar de direitos humanos no Brasil, nos Estados Unidos, a respeito de uma base aqui, chamada de Guantánamo, e em todos os lugares", disse aos jornalistas após depositar uma oferenda floral no Memorial José Martí, na Praça da Revolução, antes de se reunir com o colega Raúl Castro, no Palácio da Revolução. Dilma não poupou uma crítica a Washington: "Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro".

Fiel à linha de intervenção do antecessor e mentor, Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente condenou a utilização do tema "apenas como uma arma de combate político e ideológico", e desafiou os países que se consideram avançados a tomarem a dianteira no tema. "O mundo tem que se convencer de que todas as nações do mundo têm de se responsabilizar, inclusive o Brasil", acrescentou. "Não podemos achar que direitos humanos são uma pedra que se joga de um lado para o outro. Isso serve para nós, também", explicou.

Questionada pelos jornalistas, Dilma reafirmou que não intercerderá com o regime de Havana para que autorize a viagem da blogueira dissidente Yoani Sánchez ao Brasil, embora a embaixada em Havana tenha concedido o visto na semana passada. "Agora, os demais passos não são da competência do governo brasileiro", completou. A comitiva brasileira não respondeu aos pedidos da própria Yoani e de outros opositores por uma audiência, mas não se furtou a confirmar o encontro com o ex-presidente Fidel Castro, 85 anos, patriarca da revolução comunista: "Vou, sim, com muito orgulho". A presidente se dirigiu para a casa onde Fidel recebe os visitantes no início da tarde, depois de almoçar com Raúl.

No início da cerimônia na Praça da Revolução, Dilma, o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, e outras autoridades dos dois países se perfilaram diante do Memorial a José Martí. Como cenário de fundo, as fachadas de dois prédios históricos de Havana, com os desenhos gigantescos de Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos, dois dos companheiros. Depois da execução do Hino Nacional brasileiro pela Guarda Presidencial cubana, Dilma visitou o Memorial a José Martí e demonstrou interesse pelos lemas ideológicos estampados nas paredes. Em determinado momento, parou e leu em voz alta, em espanhol, uma das frases do patrono da independência cubana: "Sabe más quien lee más".

Após conversar com os jornalistas por 11 minutos, seguiu a pé para o Palácio da Revolução, onde foi recebida por Raúl, 80, que sucedeu o irmão Fidel em 2006. Os dois governantes assinaram nove atos complementares aos acordos de cooperação em vigor, além de um novo acordo sobre serviços aéreos e dois memorandos. Entre as novidades na área de saúde estão o apoio técnico para a consolidação da rede cubana de bancos de leite materno, para o fortalecimento da pesquisa química contra o câncer, para o controle da qualidade de medicamentos e para a qualificação de dentistas. Também foram atualizados acordos de desenvolvimento para a capacitação técnica no controle biológico de pragas e para a criação de uma base de dados geológica, em cooperação com o Ministério da Mineração cubana. Os acordos de serviços aéreos servirão para facilitar os voos entre os dois países e incentivar o turismo brasileiro em Cuba.

Admiradorquase secreto Foi com o habitual sigilo estrito que a presidente Dilma Rousseff foi conduzida, no início da tarde, para o local onde Fidel Castro se recupera dos problemas de saúde que o obrigaram a passar o poder para o irmão Raúl, em 2006. O chanceler Antonio Patriota, o assessor Marco Aurélio Garcia e o governador da Bahia, Jacques Wagne, acompanharam a presidente. Fidel tem recebido algumas das personalidades que visitam Cuba— }entre eles Lula, em duas ocasiões. Amigo de longa data do ex-presidente brasileiro, o Comandante tem se mostrado um entusiasta da ascensão de mulheres à chefia de Estados e governos na América Latina, como Dilma e a presidente argentina, Cristina Kirchner.