Título: União Europeia quer ajuda do Brasil
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 07/02/2012, Mundo, p. 16
Mesmo não ocupando mais um mandato rotativo no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Brasil é considerado um importante protagonista no contexto das negociações para uma saída pacífica da crise na Síria. Prova disso foi a visita da alta representante da União Europeia para Relações Exteriores e Política de Segurança, Catherine Ashton, ao país para tratar desse e de outros temas ligados ao Oriente Médio com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. Ao fim de uma reunião, ontem, a representante do bloco europeu e o chanceler brasileiro exibiram consonância, ao demonstrar apoio integral da Liga Árabe, no caminho de uma solução pacífica para a crise.
Segundo o Itamaraty, o fim do mandato rotativo brasileiro no órgão máximo da ONU, em 31 de dezembro, não mudou o interesse do país em acompanhar de perto os problemas na Síria, assim como de todo o Oriente Médio. A exemplo de outras nações, o Brasil demonstra preocupação de que a situação no país árabe ultrapasse suas fronteiras e se transforme em um grave conflito regional. Uma instabilidade na região — principalmente envolvendo nações como Líbano, Arábia Saudita, Iraque e Irã — poderia desencadear uma crise relacionada ao petróleo. Mesmo assim, o Brasil rejeita a interferência externa na situação e considera que o processo de transição deve ser feito pelos próprios sírios. Patriota assegurou que o Itamaraty ainda não tem um plano para retirar brasileiros da Síria.
Outra posição do governo brasileiro é a de que as negociações devem ser mantidas nas instâncias multilaterais, como as Nações Unidas e a Liga Árabe — na qual o Brasil mantém um posto de observador permanente, por meio de seu embaixador no Egito. Titular do cargo até dezembro, o diplomata Cesário Melantonio Neto passou a emissário especial do Brasil para o Oriente Médio, mais a Turquia e o Irã. De Brasília, ele mantém os canais de diálogo com os países da região. Patriota considera interessantes iniciativas para ajudar a solucionar a crise, mas pondera que saídas por canais alternativos podem enfraquecer essas instâncias.
Na ONU, o Brasil defendeu que os textos de resolução sobre a Síria deveriam condenar "todo tipo de violência", tanto do regime quanto dos opositores. Essa postura motivou críticas de ativistas e de organizações pró-direitos humanos. O país se absteve na votação de uma resolução que condenava o regime sírio em outubro. O Brasil justificou desejar mais tempo para negociar amplo apoio ao texto antes de ele ser colocado em votação e ser vetado pela Rússia e pela China, no sábado. "A não adoção da resolução da ONU no Conselho de Segurança não significa um aumento da violência, muito menos a diminuição dos esforços para se encontrar uma saída", disse Patriota.
Em agosto, o Brasil participou de uma comitiva de diplomatas do Ibas — bloco que inclui ainda a Índia e a África do Sul —, representado pelo embaixador Paulo Cordeiro, subsecretário-geral para o Oriente Médio do Itamaraty. Os diplomatas foram recebidos pelo ditador sírio, Bashar Al-Assad. Além disso, o professor brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro chefiou a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU para a Síria.