Título: Isolado, Lupi reassume a presidência do PDT
Autor: Correia, Karla; Lyra, Paulo De Tarso
Fonte: Correio Braziliense, 10/01/2012, Política, p. 4

Mesmo sem força política para liderar a sigla, e impossibilitado de negociar com o Palácio do Planalto, ex-ministro volta ao comando da legenda sob protestos de opositores

O ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi retornou ontem à presidência do PDT menor politicamente do que o Lupi fanfarrão de dois meses atrás, quando desafiava correligionários e fazia juras de amor à presidente Dilma Rousseff, em declarações que beiravam o deboche. Pouco tempo depois de deixar a pasta, desgastado pela saraivada de denúncias a respeito de irregularidades em contratos firmados com organizações não governamentais, Lupi se torna um presidente de partido sem forças para negociar os rumos da própria legenda, principalmente com o Planalto.

"Lupi saiu queimado do ciclo de escândalos e vai demorar a se reconstruir politicamente", sintetiza o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força. O protesto feito por militantes pedetistas em frente ao prédio da Fundação Alberto Pasqualini, no Rio de Janeiro, onde ocorreu a reunião que marcou o regresso de Lupi ontem, deu o tom do clima que o ex-ministro enfrentará no PDT.

Apesar de manter sua influência sobre a maioria dos membros do diretório nacional, Lupi enfrenta uma oposição interna barulhenta, com trânsito no governo e disposta a mantê-lo isolado, especialmente para preservar o lugar da legenda na Esplanada. A definição da pasta que caberá ao PDT, hoje uma das principais preocupações da sigla, é também tema de mais uma cizânia no partido.

Com um presidente alijado do relacionamento com o Planalto, a tarefa de negociar o retorno do PDT à equipe da presidente Dilma Rousseff caberá a um grupo formado pelo secretário-geral da sigla, Manoel Dias; pelo vice-presidente do partido, André Figueiredo; mais os deputados Brizola Neto (RJ) e Giovanni Queiroz (PA); além do senador Acir Gurgacz (RO). Lupi defende que o partido aceite uma nova pasta e não reassuma o Ministério do Trabalho. Quer, com isso, jogar terra nas investigações em torno de sua gestão e enfraquecer a parte da ala "rebelde", que se identifica com Paulinho da Força.

A hipótese é impensável para o sindicalista. "Nós sempre tivemos uma tradição trabalhista", diz Paulinho. Nesse cenário, Manoel Dias, Brizola Neto e o deputado Vieira da Cunha (RS) surgem como os mais cotados, dentro da legenda, para uma eventual indicação a uma pasta oferecida pela presidente. Desse grupo, tanto Brizola Neto quanto Vieira da Cunha aparecem mais afinados com a ala de resistência a Lupi. Também são vistos internamente como nomes mais próximos de Dilma Rousseff.

O neto de Leonel Brizola — fundador do partido — foi beneficiado diretamente por Dilma, que articulou com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), a nomeação do deputado Sérgio Sveiter (PDT-RJ) para a Secretaria Estadual de Trabalho e Renda fluminense, abrindo caminho para Brizola Neto, seu suplente, ocupar uma cadeira na Câmara. Amigo do ex-marido da presidente, Vieira da Cunha ainda mantém bom relacionamento com Dilma.

Surpresa Opositor a Lupi, Brizola Neto se disse surpreso com a decisão do correligionário em retomar o comando do PDT antes do encontro do diretório nacional marcada para 30 de janeiro. "Foi acertado que seu eventual retorno à presidência do partido dependeria de uma reunião do diretório nacional", conta Brizola Neto.

Na avaliação do parlamentar, ao reassumir a presidência antes do posicionamento do diretório, Lupi rompeu a trégua que tinha firmado com setores de oposição, "movido pela sua ansiedade incontrolável de enfeixar em suas mãos o controle absoluto do partido", disse Brizola Neto.