Temer apela a Alckmin para impedir cisão do PSDB-SP
Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho
03/06/2017
Em um esforço para evitar o desembarque do PSDB do governo, o presidente Michel Temer viajou ontem a São Paulo para pedir pessoalmente ao governador Geraldo Alckmin que contenha o movimento dos tucanos paulistas que defendem entrega dos cargos da sigla na administração federal.
O Palácio do Planalto teme que um gesto oficial do diretório paulista do PSDB pelo rompimento repercuta em outros Estados e amplie a pressão sobre a cúpula.
O presidente do PSDB-SP, deputado estadual Pedro Tobias, convocou prefeitos, deputados e dirigentes do partido para uma reunião ampliada da Executiva na segunda-feira que deve deliberar sobre o tema. Ao Estado, Tobias disse que defende o rompimento do PSDB com Temer.
Os diretórios da legenda no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul já fecharam questão pelo desembarque do partido. Em sintonia com o senador Tasso Jereissati (CE), presidente interino do PSDB, Alckmin havia tomado a iniciativa de tentar conter a rebelião de sua base.
Em um jantar na quinta-feira na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes, o governador reuniu os prefeitos de Santos, São Bernardo do Campo, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Jundiaí e Piracicaba, além do presidente da Assembleia Legislativa, Cauê Macris, e do secretário de Governo, Samuel Moreira. O prefeito de Santo André, Paulo Serra, não foi porque estava viajando.
Segundo relato de um dos participantes, Alckmin pediu ajuda para impedir que o diretório tire uma resolução formal anti-Temer. O chefe do Executivo paulista teria dito que defende a permanência do peemedebista no poder até 2018, e acredita nela. A avaliação é que uma eleição indireta “desorganizaria” a eleição presidencial do ano que vem.
Com o senador afastado Aécio Neves (MG) abatido por denúncias, licenciado do comando do partido e considerado fora da disputa presidencial, Alckmin despontou como nome natural da legenda.
Maia. Por fim, o governador teria dito que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), seria o nome mais forte em uma eventual disputa indireta.
Outro participante do jantar, porém, diz que em nenhum momento Alckmin pediu de forma direta por uma intervenção no diretório, e que ele mais ouviu do que falou.
A bancada do partido na Câmara esta dividida, mas o movimento pelo desembarque do PSDB vem ganhando força. Segundo o deputado Ricardo Tripoli, líder do PSDB na Casa, o martelo será batido na semana que vem. “Não dá para ficar no meio termo. A opinião publica quer um desfecho”.
Enquanto as bases tucanas pressionam, a cúpula do partido age para conter os ânimos e segue defendendo Temer. Nesse cenário, as reiteradas declarações de lealdade ao governo Temer do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, irritaram a bancada.
Tripoli evita manifestar sua posição pessoal, mas reconhece que a bancada está dividida. Segundo parlamentar, a maioria dos tucanos paulistas quer que o partido entregue os cargos que tem na administração federal. “Sou cauteloso, mas até o final da semana que vem vamos ter o desfecho na bancada. Estão chamando os defensores do rompimento com o governo na bancada de ‘cabeças pretas’, mas o líder do grupo, deputado João Gualberto, tem 60 anos.”
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Aloysio diz que partido ‘não é Madame Bovary’
Cláudia Trevisan
03/06/2017
O ministro das Relações Exteriores, o tucano Aloysio Nunes Ferreira, evocou ontem o clássico do escritor francês Gustave Flaubert para defender a lealdade de seu partido com o governo Michel Temer: “O PSDB não é Madame Bovary”, afirmou, em referência à personagem do século 19 que trai o marido e tem um fim trágico.
Aloysio se recusou a responder se continuará no cargo caso sua legenda desembarque da administração. “Eu não vou falar sobre isso. Eu sou ministro, eu apoio o presidente Temer e creio que o PSDB não vai sair do governo.
Em entrevista à revista IstoÉ, publicada ontem, o presidente Michel Temer, minimizou as movimentações dos tucanos pelo desembarque do governo.
“Não estou perdendo apoio. O que eu vejo é muito achismo. E achismo no sentido de que o governo paralisou, o País não vai para frente”, afirmou o peemedebista.
Nos Estados Unidos, o ministro das Relações Exteriores defendeu celeridade no julgamento da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Quanto antes resolver, melhor”, afirmou.
“Estou otimista quanto ao resultado do julgamento pela minha própria experiência. Eu fui candidato a vice-presidente em 2014 e minha prestação de contas foi distinta da prestação de contas do Aécio.”
Reformas. Apesar da turbulência política, Aloysio Nunes se mostrou confiante na aprovação das reformas, mas reconheceu os obstáculos enfrentados pela reforma da Previdência. “Todos os países que se engajaram em reforma da previdência tiveram dificuldades enormes em aprová-las”, afirmou o ministro.
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“O PSDB não é Madame Bovary (...) Eu não vou falar sobre isso. Eu sou ministro, eu apoio o presidente Temer e creio que o PSDB não vai sair do governo.”
Aloysio Nunes Ferreira
MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES
O Estado de São Paulo, n. 45154, 03/06/2017. Política, p. A4.