A revanche dos T-men

José Roberto de Toledo

08/06/2017

 

 

“Temer, eu te amo.” A frase foi gritada na portaria do Palácio do Planalto, instantes antes de a fã receber merecido socorro médico. Mas poderia ter sido no plenário do Tribunal Superior Eleitoral, onde o presidente era julgado por sete ministros. Ou melhor, por seis ministros e um sétimo que fazia o contraditório às acusações em tempo real, oportunidade sonhada, mas jamais vivida – até ontem, ao menos – por quem advoga para a União.

O fervor dos fãs presidenciais não deve parar por aí. Se as togas murmurantes e falantes estiverem certas, e Michel Temer for absolvido pelo TSE, a tropa de choque temerária vai sair da defesa para o ataque, mirando naqueles que considera algozes do presidente: Janot e Fachin. É a tentativa, talvez derradeira, de a Turma do Pudim escapar das cordas e, com sorte, da cadeia.

Se o plano der certo, os inquilinos do Planalto e seus dependentes conseguirão mudar a narrativa, saindo do papel de objeto para o de sujeito; de acusados a acusadores. Sucesso absoluto seria colocar sob suspeição formal o ministrorelator da Lava Jato no Supremo, um dos que vêm mandando assessores e exministros de Temer para a carceragem.

Sucesso parcial seria obrigar Fachin a se explicar sobre sua relação com a J&F.

Quanto ao procurador-geral da República, o contra-ataque deve eliminar de sua iminente sucessão os nomes de candidatos minimamente próximos a Janot. Além de retomar a agenda de mudanças legislativas que limite o poder dos procuradores em geral. No mínimo, essa tática tende a criar histórias paralelas à trama principal. Levanta poeira, aumenta a confusão.

É sob essa cortina de fumaça que os investigados e acusados de hoje sonham promover uma espécie de indulto de Natal antecipado para os T-men ameaçados de terem os cabelos raspados ao estilo Eike Batista. Sem indulto, aumenta todo dia o risco de aparecer um delator que compartilhou o pudim com a turma, ou, no mínimo, lambeu o prato onde ele estava. Não são poucos: Rodrigo Rocha Loures, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, além de outros tantos assessores e operadores menos famosos do que informados.

A janela de oportunidade que se abre no pós-julgamento serviria também a investigados de outros partidos que não o PMDB – e de ambos os lados das grades. Não é à toa que o PSDB emite sinais contraditórios sobre o desembarque do governo. Há muito em jogo: o mandato e a liberdade de seu ex-presidente, a influência tucana sobre o programa e a máquina do governo e – não menos importante – sua popularidade e viabilidade eleitoral.

Até para a oposição a Temer uma eventual absolvição da chapa que elegeu Dilma Rousseff e seu vice tem sabor agridoce. Se ajuda seu inimigo a permanecer no poder, dá, ao mesmo tempo, um carimbo de idoneidade formal à candidatura do PT. Mais do que isso, mantém o peso do governo moribundo nos ombros dos rivais até 2018.

Assim, o julgamento de Temer pelo TSE é apenas o primeiro ato de um folhetim que pode parecer burlesco para quem observa desde a galeria, mas é dramático para todos os atores em cena. A eventual absolvição do presidente será a deixa para uma tentativa de fuga em massa, da cadeia à urna. O medo do cárcere une todos em torno não de um partido ou comando, mas de uma ação capital. Se vai dar certo, só as próximas semanas dirão.

A despeito da revanche dos Tmen, Temer continuará sendo o presidente intimado a responder a 82 perguntas embaraçosas da polícia.

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Gilmar e Benjamin, um duelo no Tribunal

08/06/2017

 

 

Confronto / Conhecido pela verve afiada, presidente do TSE encontra em relator um esgrimista à altura

O segundo dia de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) escancarou um duelo entre o presidente da corte, Gilmar Mendes, e o ministro Herman Benjamin, relator da ação que pede a cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer.

Em uma vaidosa batalha, com muita “modéstia às favas”, discussões sobre “fama” e “glamour” intensificaram os ataques entre os magistrados.

Dono de uma verve tão famosa quanto afiada, Gilmar até agora encontrou em Benjamin um esgrimista à altura, porém de estilo diferente. Enquanto o primeiro abusa da contundência, o relator adota um estilo mais moderado, mas com uma retórica repleta de fina ironia e alguns apelos à emoção dos colegas.

O primeiro embate se deu quando Gilmar chamou de “falacioso” o argumento de Benjamin de propor a inclusão na ação de delações da Odebrecht na Lava Jato. Na reação, o relator recorreu às contradições de seu oponente e lembrou de um voto de Gilmar de 2015, quando Dilma ainda era presidente, no qual ele defendeu a observância sobre os fatos revelados pela força-tarefa.

Gilmar então interrompeu Benjamin enquanto ele explicava seu posicionamento sobre vazamento de delações – para o relator, as provas são lícitas. O presidente, apesar de “encantado” com a fala do colega, pediu para que ele fosse mais sucinto. Benjamin demonstrou irritação. “Vossa Excelência pode estar encantado, mas eu não estou. Quem está falando sou eu. Com o desgaste de minha saúde, não posso falar muito”, afirmou. O relator está resfriado. Julgamento que segue.

Já no fim da sessão, Gilmar voltou à provocação e disse que o processo não foi engavetado em razão de seu esforço. “Eu digo sempre: essa ação só existe graças ao meu empenho, modéstia às favas”, afirmou. Por não ter sido a ação engavetada, então, deveria Benjamin agradecê-lo pela fama, uma vez que ele “só estava brilhando em todo o Brasil, na televisão” por ser o relator.

Benjamin, conhecido por ser vaidoso, disse preferir o “anonimato”: “Não escolhi ser relator.

Preferia não ter sido. Mas tentei cumprir aquilo que foi deliberação do tribunal”. E completou: “É bom um esclarecimento aqui, presidente: processo em que se discute condenação, em qualquer natureza, não tem e não deve ter nenhum glamour pessoal.”

Gracejo. Apesar das divergências, eles se engraçaram. Benjamin provocou risos do plenário e deixou colegas surpresos ao usar a expressão “inferninhos” para se referir a casas noturnas citadas em denúncias de lavagem de dinheiro na campanha de 2014.

Gilmar entrou na brincadeira.

“Vossa Excelência não teve de fazer investigações (nestes locais)?” Benjamin respondeu que, nesse caso, não usou os “poderes de provas”. “Não expandiu, então?”, continuou Gilmar.

A resposta então do relator foi ainda mais desconcertante: “Não, mas se Vossa Excelência quiser propor...” Diante do silêncio, disse: “Imagino que não.” / BEATRIZ BULLA, BRENO PIRES, ISADORA PERON e LEONENCIO NOSSA

“Eu digo sempre: essa ação só existe graças ao meu empenho, modéstia às favas”

“(Os defensores do financiamento público de campanha, principalmente petistas, segundo ministro) Estavam renunciando ao financiamento privado, supostamente indo para o financiamento público, mas teríamos um tipo de concorrência em que o adversário estaria algemado. O outro teria o financiamento público real e todo esse brutal caixa dinheiro no exterior que entraria na campanha”

Gilmar Mendes

“ Só os índios não contactados da Amazônia não sabiam que a Odebrecht havia feito colaboração. Se isso não é fato notório, não existirá outro”

“Não escolhi ser relator. Preferia não ter sido relator. Mas tentei cumprir aquilo que foi deliberação do tribunal”

“Processo que se discute condenação não deveria ter nenhum glamour”

Herman Benjamin

MINISTRO-RELATOR DA AÇÃO NO TSE

 

O Estado de São Paulo, n. 45159, 08/06/2017. Política, p. A6