Título: Hackers expõem e-mails do governo
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 09/02/2012, Mundo, p. 20

A senha era mais que evidente: "12345". Ao digitar os cinco números, hackers do grupo Anonymous conseguiram acesso às contas de e-mail de 78 assessores e conselheiros do ditador sírio, Bashar Al-Assad. E tornaram públicas centenas de mensagens comprometedoras e curiosas.

Dez dias antes de Al-Assad ser entrevistado pela jornalista norte-americana Barbara Walters, da rede de tevê ABC News, Sheherazade Jaafari — adida de imprensa da missão da Síria nas Nações Unidas — trocou mensagens com Luna Chebel, ex-repórter da emissora Al-Jazeera e atual integrante do comitê de mídia de Damasco. Em um dos e-mails, Jaafari recomenda a Chebel: "É muito importante e valioso mencionar que "erros" têm sido cometidos no início das crises, porque não temos uma "força policial" bem organizada. A psique americana pode ser facilmente manipulada quando eles ouvem que há "erros" e que agora estamos consertando-os".

Jaafari também sugere que o líder sírio diga que em seu país "não existe uma política de torturar pessoas, ao contrário dos Estados Unidos, onde há cursos e escolas que se especializam em ensinar policiais e oficiais sobre como torturar". "Podemos usar (a prisão de) Abu Ghraib, no Iraque, como um exemplo", aconselha a adida de imprensa. Ao fim da mesma mensagem, aparecem destacados pontos-chave, na cor azul. "Al-Assad ignora o banho de sangue e a "ajuda" de outros países e da Liga Árabe", afirma o texto, segundo o qual o governo sírio não é autoritário.

Outra mensagem vazada é uma correspondência entre o ex-parlamentar britânico George Galloway e Buthaina Shaaban, a principal conselheira de mídia de Al-Assad. Galloway pede à Síria que use o porto de Latkia como o ponto de partida da flotilha Mavi Marmara, rumo à Faixa de Gaza. "Eu estou escrevendo mais uma vez para pedir à Síria a cooperação, ainda que eu não tenha duvidado disso nem por um momento.

A Síria é o último castelo da dignidade árabe", escreveu, em agosto de 2010. A resposta de Shaaban foi positiva: "Deus abençoe seus esforços incríveis e eu ficarei honrada em tomar parte nisso". Três meses antes, em 31 de maio de 2010, o navio Mavi Marmara foi interceptado pelas forças israelenses, que mataram nove ativistas. Em setembro passado, o Anonymous já havia atacado uma série de sites do governo sírio. (RC)