O Estado de São Paulo, n. 45186, 05/07/2017. Poítica, p. A8.
Na volta ao Senado, Aécio nega crime e defende governo
Julia Lindner e Thiago Faria
05/07/2017
Afastado de suas funções parlamentares por 46 dias, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) retomou ontem o mandato com um discurso de apoio ao governo do presidente Michel Temer. Na tribuna do plenário da Casa, Aécio disse que, apesar das adversidades, “Temer continua a liderar” as reformas em discussão no Congresso Nacional.
“Retorno com o firme propósito de continuar trabalhando para permitir que o Brasil possa superar as suas enormes dificuldades”, afirmou Aécio, lembrando que ele, na condição de presidente do PSDB, condicionou o apoio ao governo à pauta das reformas trabalhista e da Previdência.
Em seu primeiro compromisso oficial depois do afastamento, Aécio se reuniu com a bancada do partido no Senado e o presidente interino da legenda, Tasso Jereissati (CE), para discutir a conjuntura política. No encontro, alguns parlamentares manifestaram desconforto com a permanência do partido na base aliada de Temer.
Durante pronunciamento no plenário, Aécio evitou críticas ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e concentrou os seus ataques ao empresário Joesley Batista, dono da JBS, dizendo ter sido “vítima de uma armadilha engendrada por um criminoso confesso”.
Ele aproveitou os cerca de 15 minutos para fazer uma espécie de mea-culpa sobre o caso, admitindo que errou “ao se deixar envolver nessa trama ardilosa”, por ter permitido que os seus parentes “servissem de massa de manobra” de Joesley e por ter usado palavras de baixo calão em suas conversadas grampeadas.
Apesar disso, negou que tenha cometido crimes, prometido vantagens indevidas ou ter tentado obstruir a Justiça. Aécio reforçou a tese de sua defesa de que o pedido de R$ 2 milhões ao dono da JBS seria pela venda de um apartamento para pagar advogados. “O empréstimo seria regularizado e pago. Tratou-se de um negócio entre pessoas privadas”, alegou.
Aécio considerou que não seria possível classificar o suposto “empréstimo” como pagamento de propina, pois alegou que nunca fez promessas à JBS.
“Como alguém pode ter pagado propina sem receber qualquer benefício?”, questionou. Ele citou depoimento do delator Ricardo Saud, também da JBS, que disse em trecho de seu depoimento à Justiça que Aécio “prometeu, prometeu, e nunca fez nada” pela empresa.
O senador foi acusado pela Procuradoria-Geral da República pelos crimes de corrupção passiva e obstrução da Justiça.
Após a divulgação da delação, no dia 18 de maio, ele foi afastado por decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF). O tucano retomou o mandato ontem, após decisão do ministro Marco Aurélio Mello, do STF.
Cassação. No mesmo dia em que Aécio voltou ao Senado, o presidente do Conselho de Ética do Senado, João Alberto Souza (PMDB-MA), convocou reunião do colegiado para amanhã a fim de analisar o recurso contra o arquivamento do pedido da cassação de Aécio.
Há cerca de dez dias, o presidente do conselho arquivou representação por quebra de decoro parlamentar contra Aécio apresentada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), por considerar que não havia provas suficientes para dar início ao processo.
Um grupo de cinco senadores, no entanto, recorreu da decisão monocrática. Para a representação voltar à análise, são necessários os votos de, pelo menos, 8 dos 15 integrantes titulares do colegiado.
Tribuna. Aécio Neves faz primeiro discurso após retomar funções no Senado
“Não cometi crime algum e não aceitei recurso de origem ilícita.”
Aécio Neves (PSDB-MG), senador
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Tucano se mantém como ‘presidente licenciado’
Pedro Venceslau e Renan Truffi
05/07/2017
No retorno ao Senado após 46 dias de afastamento das funções parlamentares, o senador Aécio Neves (MG) avisou aos correligionários do PSDB que não pretende, pelo menos por enquanto, retomar a presidência efetiva da legenda, mas continuará como “presidente licenciado”.
Pelo estatuto tucano, ele teria a prerrogativa de reassumir o cargo, mas optou por deixar o senador Tasso Jereissati (CE) no comando. Apesar da decisão, Aécio, Tasso e o senador José Serra (SP) se colocaram contra a proposta de aliados do governador Geraldo Alckmin de antecipar a convenção nacional do PSDB de maio de 2018 para o segundo semestre.
A antecipação da renovação da direção partidária também é defendida pelos “cabeças pretas”, ala do PSDB da Câmara que prega o rompimento com o presidente Michel Temer, e por setores do partido que atuam nos movimentos sociais, como a J-PSDB (Juventude Tucana).
Em conversas reservadas, deputados dizem que a presença de Aécio como presidente licenciado traz todos os holofotes para o PSDB. Os “cabeças pretas” avisaram que, se o senador não fizer “um gesto de grandeza” de renunciar, o grupo vai começar a pressioná-lo publicamente.
Em reunião na semana passada com senadores e deputados, Serra expôs esse raciocínio. A solução que se constrói nos bastidores da sigla é deixar do jeito que está. Ou seja: adiar ao máximo a próxima reunião da Executiva e deixar Tasso no comando de forma interina, enquanto Aécio fica por prazo indeterminado como presidente licenciado.
Os caciques também não querem dar holofote aos “rebeldes”.
O principal obstáculo à proposta de manter a cúpula tucana, entretanto, é Alckmin.
Mas até ele dá sinais de que pode aceitar a ideia. O prefeito João Doria, aliado do governador, se posicionou contra antecipar a eleição. “Tasso pode ser efetivado, mas só para cumprir o final deste mandato, até maio de 2018, quando o PSDB deve convocar eleição para o Diretório Nacional”, disse ao Estado.
Pior momento
Aécio, Tasso e Serra convergem na tese de que o PSDB vive seu pior momento desde a fundação. A leitura é de que a divisão é tão profunda que qualquer mobilização pode terminar em confusão
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Ministro do TCU admite que usou jato da J&F
Fabio Serapião
05/07/2017
O ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), usou o jatinho do Grupo J&F em uma viagem entre o Recife e Brasília em setembro do ano passado, quando o empresário Joesley Batista já era investigado pela Operação Lava Jato.
Quando Dantas se valeu do empréstimo da aeronave da J&F, a Eldorado Celulose, empresa do grupo, havia sido alvo da Operação Sépsis, e Joesley estava na mira dos investigadores por causa da delação do exvice- presidente de Fundos de Governo e Loterias Fabio Cleto sobre propina para liberação de valores do FI-FGTS.
A aeronave usada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista apareceu em investigações quando os delatores entregaram à Procuradoria-Geral da República (PGR) o plano de um voo que incluiu um trecho usado pelo presidente Michel Temer com a mulher Marcela, em 2011, quando ele era vice-presidente da República.
No caso de Dantas, a viagem e o passageiro estão registrados no plano de voo da aeronave do grupo. O Estado questionou o ministro Dantas, mas ele não respondeu sobre como se deu o empréstimo da aeronave e quem arcou com os custos decorrentes do voo. Em nota, Dantas afirmou que o “superficial e esporádico convívio social” que teve com o Joesley não “infringiu normas legais”.
No TCU, corte para a qual Dantas foi indicado pelo Senado Federal em 2014, o ministro participa de julgamentos de casos de interesse da holding J&F e dos irmãos Batista. As auditorias em curso avaliam irregularidades em repasses de R$ 10 bilhões feitos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao grupo que controla a JBS, empresa de proteína animal dos irmãos. São cerca de R$ 8 bilhões em aportes do BNDESPar e outros R$ 2 bilhões em financiamentos.
A J&F informou que não vai comentar o tema específico. “Os colaboradores já apresentaram informações e documentos referentes aos atos praticados por eles e continuam à disposição para cooperar com a Justiça.”