Presidente manda recado a Janot em discurso
Andrea Jubé, Bruno Peres e Daniel Rittner
30/06/2017
Denunciado pela Procuradoria-Geral da República, o presidente Michel Temer aproveitou ontem a cerimônia de um ano das novas regras de governança das estatais para cobrar "responsabilidade" dos agentes públicos. Segundo Temer, o Brasil atravessa uma "crise sem precedentes" e é preciso superá-la para retomar o caminho do crescimento.
"O momento que atravessamos exige responsabilidade de todos. Responsabilidade com a coisa pública, com atos e palavras. O que está em jogo é a superação de uma crise sem precedentes", alertou.
"Na atividade privada, na atividade pública, no Legislativo, no Executivo, no Judiciário, onde quer que estejam todos respondem pelos seus atos", completou.
Na avaliação de aliados que participaram da solenidade, as declarações de Temer foram interpretadas como um recado velado ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, autor da denúncia por corrupção passiva apresentada contra o presidente.
O recado fica evidente em alguns trechos, como na passagem em que Temer cobra "responsabilidade com atos e palavras" em todas as esferas da administração pública, mencionando "o Judiciário" e "onde quer que estejam todos respondem pelos seus atos".
Entre aliados, e especialmente entre conselheiros jurídicos, a denúncia de Janot é apontada como fruto de uma "conduta irresponsável" e "leviana" do procurador-geral. Uma das principais críticas recai sobre a estratégia de fatiar as acusações: o Palácio do Planalto espera para agosto o protocolo de mais duas denúncias contra Temer, estas por obstrução à Justiça e formação de quadrilha.
O presidente ainda ressaltou que a falta de responsabilidade "destrói empresas, corrói instituições". No pronunciamento de terça-feira, quando fez um duro pronunciamento em resposta à denúncia de Janot, Temer afirmou que a acusação não é voltada exclusivamente a ele, mas também à instituição Presidência da República. "Eu verifico muitas vezes que há uma tentação para o aplauso fácil com o sacrifício da responsabilidade, e isso deve ser vencido em todos os domínios da vida pública", completou.
O presidente ressaltou que a crise retarda o avanço do país e a retomada do crescimento. Segundo Temer, os empregos estão voltando, os juros estão caindo, a inflação está caindo ao nível inferior ao centro da meta, "a indicar que ao final do ano talvez tenhamos uma inflação inferior ao centro da meta". Temer afirmou que o Brasil "está respirando" e nada, nem mesmo essa crise, pode impedir essa "respiração extraordinária" em andamento.
Em sua manifestação, Temer apontou a recuperação econômica de empresas públicas como Petrobras, Eletrobras, BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Correios. Segundo o presidente, essas empresas precisavam ser saneadas e passaram a reverter quadros de prejuízo financeiro para lucro, redução de endividamento e ganho de valor de mercado em alguns casos. "Frustramos interesses de gente poderosa", afirmou. "O objetivo não era só moralista, mas salvar e cultivar o patrimônio que pertence a todos", concluiu.
Valor econômico, v. 17, n. 4287, 30/06/2017. Política, p. A6.