Temer e Aécio "estão provando do próprio veneno", diz Lula

Cristiane Agostine e Andrea Jubé

06/07/2017

 

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves (PSDB-MG) são os responsáveis pelo clima de "ódio e intolerância" vivido pelo país e disse que os dois adversários estão provando do "próprio veneno". Em entrevista à rádio Arapuan, da Paraíba, Lula ironizou a baixa popularidade do presidente registrada em pesquisas de opinião e disse que Temer é uma "margem de erro". O ex-presidente atacou também partidos e políticos que participaram da gestão Dilma Rousseff e que estão no governo Temer, como PSD, PRB e PP, e classificou os antigos aliados como traidores.

"O PMDB, o Temer, o Aécio e o PSDB estão provando do veneno que eles próprios produziram neste país. Estão colhendo tempestade porque plantaram vento", afirmou na entrevista à rádio, concedida pelo telefone e transmitida pela internet. "Plantaram ódio e estão colhendo isso".

Lula afirmou que Temer "vendeu facilidades" ao culpar o PT pelos problemas enfrentados pelo país no governo Dilma, mas agora está mostrando que "não tem competência" para comandar o país, "não sabe o que fazer com o país" e "não conhece o povo". Segundo o ex-presidente, só quem for eleito democraticamente pelo voto poderá fazer reformas e tirar o país das crises política e econômica. "As pesquisas demonstram que ele [Temer] é uma margem de erro. Um cara que só tem 3% não tem nada", declarou na entrevista.

Ao falar sobre uma possível candidatura em 2018, Lula afirmou que será difícil construir uma ampla aliança e criticou a traição de antigos aliados. "Não foi apenas o PMDB que apunhalou a Dilma pelas costas", disse o ex-presidente, citando em seguida PRB, PP e PSD. Lula destacou o caso de Gilberto Kassab (PSD) e Aguinaldo Ribeiro (PP), que foram ministros de Dilma mas que estão com Temer.

"Essas pessoas se acovardaram. Quando você chama eles para participar do governo, eles falam assim: 'Olha, gratidão é uma coisa que a gente não esquece'. [Mas] A primeira coisa que fazem é esquecer a gratidão. Viraram traidores", disse. "O que fizeram com Dilma é uma vergonha". Na sequência, Lula afirmou que "caráter não está à venda em supermercado, bodega ou bar".

Alvo de denúncias de corrupção, assim como Temer e Aécio, Lula disse que é preciso cautela com as acusações sem provas e afirmou que muitos delatores estão mentindo. "É preciso que as pessoas que fazem as acusações tenham provas materiais. Não pode culpar apenas por conta da delação", afirmou. "No meu caso, já provei a minha inocência. Quero que provem a minha culpa. E se tem acusação contra o Temer, tem que ser investigada. Se for investigada, tem que ser julgada e se for culpado, tem que ser condenado", disse.

Ao ser questionado se pretende anular projetos apresentados pelo governo Temer, como as reformas trabalhista e da Previdência, Lula desconversou. "Seria falso dizer que vou anular tudo", disse. Segundo o ex-presidente, é preciso medir a correlação de forças que sairá da disputa presidencial. "[O candidato] não vai ser eleito para ficar brigando com o ex-governo", declarou.

O ex-presidente afirmou que tem disposição para candidatar-se novamente à Presidência e que está se preparando. Lula disse que tem feito duas horas de exercícios físicos todos os dias, como corrida e sete quilômetros de caminhada. "Quem quiser disputar vai ter que tem muito preparo físico, muito preparo mental e compromisso com o povo".

 

 

Valor econômico, v. 17, n. 4291, 06/07/2017. Política, p. A9.