PF acaba com grupo exclusivo para tratar de Operação Lava-Jato

André Guilherme Vieira e Murillo Camarotto

07/07/2017

 

 

A direção-geral da Polícia Federal (PF) informou ontem que não haverá mais um grupo de trabalho exclusivo para a Lava-Jato em Curitiba. Tanto as atividades desta Operação quanto as da "Carne Fraca" ficarão concentradas na Delegacia de Combate à Corrupção e Desvio de Verbas Públicas (Delecor). A Lava-Jato começou em março de 2014, após a deflagração da investigação que foca corrupção bilionária na Petrobras.

As duas operações serão coordenadas pelo delegado Felipe Hayashi e não mais pelo diretor regional de combate ao crime organizado, Igor Romário de Paula.

A mudança na PF em Curitiba pode não ter extinguido a força-tarefa, mas reflete as dificuldades que a instituição sofre após corte linear de 40% dos recursos pelo Ministério do Planejamento. O orçamento da PF, antes em cerca de R$ 1 bilhão, agora é de R$ 600 milhões. O contingenciamento já ameaça atividades primárias, como abastecimento de viaturas e pagamento de contas de energia e água das unidades da PF no país.

A repercussão negativa provocada pelo anúncio da modificação na Lava-Jato em Curitiba levou o superintendente regional do Paraná, Rosalvo Franco, e o delegado Igor Romário de Paula a convocarem entrevista coletiva para fazer esclarecimentos.

Franco disse que houve uma readequação com o fim do grupo de trabalho e que o efetivo de policiais federais que acompanham as investigações aumentará.

Segundo Romário de Paula, a dificuldade em manter a equipe da PF para a Lava-Jato em Curitiba decorre do fato de que a operação se desdobrou para Brasília e outros 16 Estados.

"Não houve até agora qualquer limitação de recursos que tenha impedido a chegada de novos policiais", garantiu.

Integrantes da PF e do Ministério Público Federal (MPF) interpretaram a mudança como ingerência política para desmonte da Lava-Jato por parte do governo federal, que conta com alguns de seus principais integrantes sob o cerco da investigação no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) - caso do próprio presidente Michel Temer, alvo de acusação formal por crime de corrupção passiva.

O procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos coordenadores da Lava-Jato no MPF em Curitiba, usou rede social para atacar o governo Temer e denunciar "o fim da força-tarefa da Lava-Jato".

"A Polícia Federal não tem mais dinheiro para [emitir] passaporte. A força-tarefa da Polícia Federal na Operação Lava-Jato deixou de existir. Não há verbas para trazer delegados", afirmou. "Mas para salvar o seu mandato, Temer libera verbas à vontade", criticou Carlos Fernando, referindo-se à liberação de emendas milionárias do governo federal a parlamentares, em busca de apoio no Congresso para barrar a denúncia apresentada contra o presidente pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em nota divulgada ontem à noite, a força-tarefa de procuradores da Lava-Jato em Curitiba manifestou discordância em relação à dissolução do grupo da Lava-Jato no âmbito da Polícia Federal", e classificou a medida como um "evidente retrocesso".

Os procuradores dizem ainda, na nota, que a mudança, "após a redução do número de delegados a menos da metade, prejudica as investigações da Lava-Jato e dificulta que prossigam com a eficiência com que se desenvolveram até recentemente".

 

 

 

Valor econômico, v. 17, n. 4292, 07/07/2017. Política, p. A5.