Título: As cartas do PSDB pela sobrevivência
Autor: Lyra, Paulo de Tarso
Fonte: Correio Braziliense, 12/02/2012, Política, p. 6
Em meio a disputa acirrada em São Paulo, sigla começa a definir os nomes para concorrer às prefeituras das capitais em outubro
A direção nacional do PSDB tenta isolar as desavenças que perturbam o seu ninho em São Paulo para que as prévias paulistanas não minem as chances de crescimento nas eleições municipais deste ano. A principal legenda de oposição ao governo federal luta para não sangrar como seus pares — DEM e PPS, hoje sombras pálidas do que foram no passado — e ter algum poder de fogo para contrapor-se ao PT de Dilma Rousseff daqui a dois anos e oito meses. "O PSDB não acabou. Se não fosse essa pancadaria em São Paulo, nós estaríamos bem melhor", disse um alto integrante do comando tucano. Olhando o mapa eleitoral, passa-se uma falsa impressão de que os tempos não são sombrios. O partido terá candidatos em praticamente todas as capitais (veja quadro ao lado). O duro será conseguir êxito nessas disputas. Em nenhum dos estados governados pelo PSDB — oito no total —, o partido terá vida fácil nas capitais. Em um deles, inclusive, foi preciso uma intervenção do Diretório Nacional para que a legenda estadual mudasse de mãos para evitar um desastre retumbante. É o caso, por exemplo, do Pará, onde o presidente Sérgio Guerra "tirou" o PSDB do controle de Almir Gabriel, transferindo poder para Simão Jatene.
Essa manobra permitiu que o deputado federal Zenaldo Coutinho fosse o candidato à prefeitura em Belém. "O partido tem que pensar, sim, em ter o maior número de candidaturas nas capitais. Essas posições servirão de alicerce para a disputa que acontecerá daqui a dois anos, tanto nos estados quanto no plano federal", destacou Zenaldo. "É fundamental para o PSDB ter essa capilaridade", completou.
O partido, contudo, ainda pena com a perda de lideranças importantes e para derrotas de nomes antes considerados caciques na legenda. Dentre os que foram protagonistas da diáspora, estão nomes bem situados na política regional hoje, como o governador do Rio, Sérgio Cabral, e o atual prefeito da capital fluminense, Eduardo Paes, mais do que favorito na disputa pela reeleição. Ambos estão no PMDB. "Até hoje Cabral nos procura para trocar ideias e propostas", confidenciou o deputado Ricardo Trípoli (SP), um dos quatro pré-candidatos na prévia paulistana.
Para dirigentes do PSDB, não havia como segurar esses dois nomes no partido, já que eles migraram para o PMDB para estarem mais próximos do governo, algo que os tucanos não podem oferecer nesse instante. "O Paes era secretário-geral quando nos deixou, ele não tinha do que se queixar", declarou Zenaldo.
Caciques em baixa
Outra baixa, essa mais sentida, é a do ex-deputado Gustavo Fruet (PR). Um dos mais combativos parlamentares, especialmente durante a CPI do Mensalão, ele abandonou o PSDB e filiou-se ao PDT por bater de frente com o principal tucano paranaense, o governador Beto Richa. Hoje, Fruet aparece com quase 10 pontos percentuais de vantagem sobre seus concorrentes na disputa pela prefeitura de Curitiba. "O Beto foi muito turrão. Mas o Fruet também não ajudou em nada na busca pelo entendimento", lamentou um dirigente partidário.
O PSDB também encolheu porque antigos caciques partidários perderam o viço ou terão que recomeçar praticamente do nada. Arthur Virgílio já foi líder do governo Fernando Henrique Cardoso, ministro da Secretaria-Geral da Presidência e senador da República. Hoje, vai cumprir uma árdua missão partidária candidatando-se a vereador por Manaus. A cúpula tucana espera que ele puxe outros cinco ou seis nomes da legenda, dando um status nunca antes conferido ao partido na capital amazonense. "No interior, somos fortes. Mas aquela implicância ridícula de São Paulo com a Zona Franca de Manaus sempre fez com que fôssemos nanicos no maior colégio eleitoral do Estado", lamentou um dirigente do PSDB.
No Ceará, o partido vive uma situação parecida. Tasso Jereissatti já foi presidente nacional do PSDB e com força suficiente para rachar a legenda em 2002, apoiando informalmente Ciro Gomes na disputa presidencial contra José Serra. Perdeu a eleição de senador para a aliança entre PT e PMDB, que elegeu, respectivamente, Eunício Oliveira (PMDB) e José Pimentel (CE).
Na Região Sul, onde está um dos grãos-tucanos da atualidade, Beto Richa, o partido terá que lutar pela reeleição do atual prefeito da capital paranaense, Luciano Ducci (filiado ao PSB). E no Rio Grande do Sul, o partido conseguiu em 2006 eleger a governadora Yeda Crusius. Os quatro anos seguintes quase varreram o PSDB dos mapas gaúchos. "Foi péssimo. Não conseguimos nem manter o governo nem tampouco crescer o partido", reconhece um dirigente da legenda.
"Acabou a docilidade, a voz rouca, agora vamos radicalizar"
Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB