Título: Improdutivos como os latifúndios
Autor: Prates, Maria Clara ; Augusto, Leonardo
Fonte: Correio Braziliense, 12/02/2012, Brasil, p. 6
Com 13 anos de existência, o assentamento Zumbi dos Palmares, a 20 quilômetros de Uberlândia (MG), é um conjunto de lotes subutilizados para a agricultura e a pecuária. Dos 22 sem-terra que receberam do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) o Contrato de Cessão de Uso, apenas sete permanecem no local. Um deles é Aparecida de Fátima Queiroz, 58 anos. No terreno que recebeu, Aparecida produziu farinha de mandioca e criou algumas cabeças de gado. O rendimento ajudava na manutenção da família: a mãe, o marido, três filhos, um genro, duas noras e 10 netos. Todos distribuídos em quatro casas construídas no lote.
Para ampliar a produção de farinha, Aparecida vendeu as vacas e comprou dois fornos, que furaram há três anos. A queda no faturamento a obrigou a procurar um emprego. E encontrou dentro do próprio assentamento. Aparecida passou a trabalhar como empregada doméstica de Iracilda Alves Franco, 62, que nunca foi produtora rural. Há quatro anos, com a ajuda dos filhos que trabalham em Uberlândia e em Mato Grosso, Iracilda comprou um dos lotes do local e construiu uma casa de quatro quartos, uma grande varanda e um campo de futebol society. Iracilda paga salário de R$ 750 mensais à funcionária.
Ao lado da casa, em cerca de 16 hectares do terreno, Iracilda plantou eucaliptos, uma cultura muito mais comum em terrenos de grandes empresas fornecedoras do setor de siderurgia. A moradora do assentamento afirma ter adquirido o terreno por R$ 15 mil. A família de Iracilda chegou ao assentamento depois de ler um anúncio no jornal. "Meus filhos viram que uma pessoa queria se desfazer da terra em um outro assentamento. Lá, a negociação não deu certo. Mas achamos esse, onde construímos a casa", conta.
O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uberlândia culpa o Incra pela debandada dos sem-terra da região. "Enquanto a reforma agrária não for uma política de Estado, e não de governo, nada vai mudar", afirma o assessor do sindicato para o assunto, Django Alves da Silva. (LA e MCP)