Título: Diplomacia, sim, é coisa de mulher
Autor: Braga, Gustavo Henrique
Fonte: Correio Braziliense, 12/02/2012, Economia, p. 16

Ainda há muito espaço a conquistar, mas elas já representam 16% dos quadros do Itamaraty

Ao pensar em um diplomata, a primeira imagem que vem à cabeça, para muitos, é a de um senhor discreto, bem articulado, vestindo um terno alinhado e cujas obrigações familiares ficam a cargo de uma esposa que o acompanha nas missões mundo afora. Na última década, entretanto, essa visão mudou. No fim de 2002, 6% dos embaixadores brasileiros — cargo que representa o topo da carreira diplomática — eram mulheres. Atualmente, elas respondem por 16% das vagas. Apesar de ainda serem proporcionalmente poucas, o crescimento foi de quase 300% nos últimos nove anos. Em números absolutos, 21 mulheres ocupavam postos no alto escalão do serviço exterior em 2010, ano do levantamento mais recente feito pelo Itamaraty.

A carioca Natalia Miranda Anders, 29 anos, sonha em engrossar a presença feminina nos quadros da diplomacia brasileira. Candidata ao concurso para o Instituto Rio Branco, reconhece que a presença de mulheres na carreira é tímida. Ela faz curso preparatório há quatro anos, mas se lembra de apenas uma mulher aprovada nesse período. "Apesar de as turmas serem sempre equilibradas, conheço muito mais homens que passaram na prova", diz. Natalia acredita que grande parte da dificuldade feminina está relacionada com a carga emocional no momento da prova e, principalmente, durante as etapas seguintes.

"Para passar no concurso é necessário pragmatismo e racionalidade. É mais fácil que o sexo feminino fique prejudicado nesse momento. As mulheres podem se sentir intimidadas, inseguras e, portanto, mais frágeis", justifica Natalia. Desde que ingressou no cursinho, após se formar em direito pela Universidade de Passo Fundo (RS), em 2008, a carioca também percebeu que o número de mulheres que desistiram dos estudos foi maior. Com o passar do anos, muitas perdem o foco e seguem outras áreas dentro da profissão. Com isso, os livros ficam de lado. "Muitos conhecidos homens também arranjam um emprego em outra área, mas conseguem conciliar melhor o trabalho com o estudo", afirma.

Os números do Ministério das Relações Exteriores (MRE) comprovam a percepção de Natalia. Apesar dos avanços para alcançar a paridade entre homens e mulheres nos cargos de chefia do serviço exterior, a balança ainda pesa muito mais para o lado masculino quando observado o total de servidores. Dos 1.582 diplomatas em atividade, apenas 317, ou 20%, são mulheres, percentual que não se alterou ao longo da última década.

Resistência

Candidatas ao cargo, contudo, não faltam: em média, quase 40% das inscrições para as seleções do Itamaraty são de mulheres, o dobro da média de aprovadas. Os dados constam no estudo "Diplomata: substantivo comum de dois gêneros", apresentado pela diplomata Viviane Rios Balbino, em 2005, para conclusão de mestrado e que virou livro, escrito, integrante da missão brasileira na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington (EUA).

Apesar de reconhecer que a vida familiar pode ter impacto na carreira das mulheres diplomatas, devido aos diferentes papéis atribuídos a homens e mulheres na sociedade, Viviane defende ser necessário desmistificar a crença de que a mulher que deseja ter família não deve eleger a carreira no Itamaraty como opção profissional. Ela afirma que, tradicionalmente, as esposas de diplomatas acompanham seus maridos em uma constância muito maior e com menos conflitos do que as diplomatas removidas, cujos maridos são mais resistentes a esse processo. "Mas essa é uma realidade que está mudando", diz. Hoje, muitos homens valorizam e incentivam a promoção de suas mulheres e as acompanham sem traumas.

Atualmente, há mulheres em alguns dos postos mais importantes do Itamaraty, como é o caso de Maria Luiza Viotti, embaixadora junto à Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York; Maria Laura Rocha, embaixadora junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris (França); e Maria Nazareth Farani Azevedo, embaixadora junto à ONU em Genebra (Suíça). E mais: as chefias de gabinete do secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores e do ministro Antonio Patriota são ocupadas por mulheres.

Impasse

A diplomata Tania Alexandra Malinski, assistente do departamento da África no Itamaraty, está há 12 anos na carreira e se considera testemunha de uma mudança gradual. "O número (de mulheres) era menor quando entrei. Percebi, nos últimos anos, um interesse crescente", relata. Mãe de dois filhos, Tania considera a dificuldade em conciliar o trabalho com a agenda familiar como um impasse, percebido também nas conversas com colegas diplomatas. "Talvez esse drama associado à família faça com que as mulheres acabem não se interessando pela diplomacia", admite.

Historicamente, as questões familiares sempre tiveram papel decisivo para o entendimento do baixo número de mulheres na diplomacia. Em 1938, a carreira chegou a ser restringida aos homens e esteve assim até 1954, quando uma lei que franqueava o acesso feminino foi promulgada, graças aos esforços de Maria Sandra Cordeiro de Mello, aprovada no concurso, em 1953, amparada por mandado de segurança.

Num primeiro momento, as mulheres que se casavam com colegas diplomatas tinham que pedir exoneração. As regras foram mudando, acompanhando a evolução dos costumes: a partir de 1985, por exemplo, os casais de diplomatas passaram a poder servir juntos no exterior. Antes, um deles era obrigado a entrar em licença sem vencimentos, e essa imposição, por motivos culturais, acabava recaindo sobre a mulher. Em 1996, foi removido o último tratamento diferenciado, com a aprovação de lei dispondo que, quando trabalhando no exterior, os dois membros do casal teriam salários equivalentes. Até então, um dos dois recebia cerca de 60% do salário.

Nos dias atuais, Tania acredita há uma tendência niveladora dos gêneros por parte do Itamaraty. "A casa tem sinalizado que o sexo feminino é bem-vindo, à medida que dá cargos importantes às mulheres", analisa. "Claro que o fato de haver ministras e uma mulher presidente são fatores que influenciam positivamente, mas o determinante deve ser a vocação, como em qualquer outra profissão", conclui.

Fique ligado

Hoje, é o último dia para se inscrever no concurso que selecionará 30 diplomatas. O salário é de R$ 12,9 mil. Para se candidatar é preciso ter curso superior em qualquer área. As inscrições podem ser feitas pelo endereço eletrônico do Centro de Seleção e Promoção e Seleção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe-UnB, www.cespe.unb.br), organizador do processo seletivo. A taxa é R$ 150.