Base fecha questão por Temer, mas votação já escorrega para agosto

Raphael Di Cunto, Daniel Rittner e Marcelo Ribeiro

13/07/2017

 

 

O governo está momentaneamente mais perto de uma vitória na Câmara dos Deputados, mas tem agora o relógio como principal adversário na votação da denúncia contra o presidente Michel Temer. Líderes da base previam que a votação em plenário ficaria para amanhã, mas que não haveria deputados suficientes para abrir a sessão. Com isso, o processo só seria pautado novamente em agosto, aumentando o desgaste do governo. A dança das cadeiras promovida nos últimos dias deve garantir um placar folgado a favor de Temer na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). No plenário, o governo obteve ontem um importante respaldo de sua base aliada. Quatro partidos - PMDB, PP, PR e PSD - fecharam questão para rejeitar a denúncia. A ameaça de punição reverteu alguns votos que pendiam a favor de que o presidente fosse julgado.

Juntas, essas quatro legendas têm 185 deputados - número mais do que suficiente para barrar a acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR). O grande problema, sem falar em traições da base, cerca de 30 a 40 entre esses partidos, é que a votação provavelmente ficará para agosto. Isso abre espaço para "fatos novos" que possam desgastar ainda mais o presidente, como a delação do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e lhe tirar compromissos de apoio costurados em delicadas negociações. Parlamentares governistas queriam liquidar o assunto amanhã, votando a denúncia em plenário, mas o Palácio do Planalto já avaliava ontem à noite que esse calendário parece inviável. O presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), marcou para as 16h de hoje sessão conjunta do Congresso Nacional para apreciar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2018. Se isso de fato ocorrer, o recesso começará oficialmente na segunda-feira e ninguém acredita que haja quórum. Ontem, no auge dos trabalhos, 458 dos 513 deputados registraram presença, já incluídos os de oposição. Por causa do recesso, muitos marcaram viagem com a família e avisaram que não ficariam.

Sobraram críticas dos governistas à postura do presidente da CCJ, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), que tem mantido distanciamento do Planalto. Ele deu 15 minutos de microfones abertos para cada titular do colegiado, além de dez minutos para outros parlamentares. Quase uma centena de deputados se inscreveu. Calcula-se em mais de 20 horas o estoque de discursos ainda não pronunciados até o fechamento desta edição. "É uma coisa absurda. Não tem a menor necessidade disso", afirmou o vice-líder do PMDB, Carlos Marun (MS). Pacheco foi alvo de reclamações até mesmo por interromper os trabalhos para almoço - ele poderia ter deixado um substituto na presidência da CCJ.

Os líderes do governo na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e no Congresso, André Moura (PSC-SE), conversaram à noite com Temer e faziam cálculos com a base governista sobre a viabilidade de uma votação ainda nesta semana. Eles queriam ver se conseguem mobilizar o número de parlamentares necessários para abrir sessão amanhã. São necessários 342 parlamentares no plenário para que se inicie a análise da denúncia. "Se não conseguirmos mobilizar os 342 para sexta-feira, passaremos à sociedade que a oposição fugiu da sessão para que ela não fosse aberta porque sabiam que perderiam. O governo não assimilará isso como uma derrota e trabalhará durante o recesso para manter o número necessário para impedir que a denúncia seja acatada", afirmou o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS). A pressa dos governistas era sintoma da confiança produzida com o fechamento de questão do PMDB, PP, PR e PSD. Caso desobedeçam à orientação partidária, os deputados ficam sujeitos ao risco de expulsão. Mesmo assim, não há garantia de alinhamento com o Planalto. Mas outras siglas da base, como PRB e PTB, têm maioria favorável a Temer. Com isso, o governo está convencido de que ultrapassaria com folga os 171 votos necessários para impedir a abertura da denúncia hoje, mas temia fatos novos que mudassem o cenário. Nos bastidores, uma das manobras possíveis para a sessão de hoje é que o relator Sergio Zveiter (PMDB-RJ) peça, diante das considerações feitas pelos oradores, para recolher o seu parecer a fim de fazer uma análise e devolvê-lo na sessão seguinte. Isso faria com o que a votação acontecesse no mínimo amanhã.

 
 
 
Valor econômico, v. 17, n. 4296, 13/07/2017. Política, p. A9.