Com PT alvejado, Bosonaro mira Doria

Cristian Klein e Daniel Rittner

14/07/2017

 

 

Acostumado a dar declarações virulentas contra o PT, o deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) não vociferou contra o ex-presidente Lula Inácio Lula da Silva ao comentar a condenação do petista pelo juiz Sergio Moro. No novo cenário que se desenha, Bolsonaro, em entrevista ao Valor, parece mais interessado em atingir o PSDB e o possível adversário com quem trocará de voto no campo da direita: João Doria.

Critica o prefeito de São Paulo pelo apoio ao governo. Bolsonaro afirma que votará contra o pemedebista, na denúncia apresentada pelo procurador da República, Rodrigo Janot, e aposta suas fichas no afastamento do presidente.

Ao discorrer sobre a condenação de Lula, o parlamentar diz discordar da posição de Doria, que afirmou há três semanas que Lula tinha que disputar a eleição de 2018 e ser batido nas urnas. Se Lula for condenado em segunda instância, ficará inelegível.

De acordo com o deputado, defender esse argumento seria "dar outra chance" ao petista, como em 2005, durante o escândalo do mensalão. "Tudo ao seu tempo. Se a Justiça punir, seja quem for, Lula ou um vereador, a consequência da pena pode ser a inelegibilidade. A consequência não é só a prisão", diz.

Ontem, o prefeito de São Paulo mudou o tom. Por meio de um vídeo divulgado nas redes sociais, pediu para a população abrir bandeiras verde-amarelas "nas sacadas dos apartamentos, nos jardins das casas e nos automóveis" para demonstrar solidariedade ao juiz Sergio Moro.

Sem Lula na disputa, a esquerda tende a ficar fragilizada. Mas Bolsonaro põe todos os adversários no mesmo balaio. Discorda que a inelegibilidade de Lula beneficiará, sobretudo, o ex-governador Ciro Gomes (PDT) e a ex-senadora Marina Silva (Rede). "Vai ter gente de esquerda. Todo mundo é de esquerda. O PSDB também é", diz.

Bolsonaro afirma que o PSDB entrará desgastado na eleição presidencial de 2018 pela "demora a tomar decisões", como a de desembarcar do governo Temer, e pelas posições que só fazem o PT se recuperar. "Não acho que pela governabilidade vale a corrupção. O melhor é que os corruptos sejam presos", diz

Sobre a denúncia, Bolsonaro diz que não sabe se o PSC, com dez deputados, fechará questão para rejeitá-la, mas adianta que sua posição e a do filho, Eduardo, independem disso. "Meu voto e o dele não pertencem ao partido. Temer não vai ter meu voto", diz.

Para o parlamentar, a vitória do governo na Comissão de Constituição e Justiça - que rejeitou ontem o relatório a favor de que a denúncia seja julgada pelo Supremo Tribunal Federal - foi obtida graças à troca de integrantes titulares anti-Temer por suplentes governistas. Mas, em sua opinião, a manobra "não vai dar certo" quando o relatório for apreciado pelos 513 deputados: "É muito difícil Temer sobreviver no plenário".

De saída do PSC, Bolsonaro não antecipa com que legendas têm conversado. Diz que "ninguém chegou" do DEM com proposta, mas descarta veementemente eventual migração para a sigla: "Olha a estrutura do DEM. Eu por acaso vou ter protagonismo lá?", questiona. O destino deve ser uma agremiação menor. "Estou namorando vários partidos. Se passar a minirreforma eleitoral, com cláusula de barreira, sou importante [para os pequenos partidos]. Vou para a disputa, mesmo sem tempo de TV", diz, animado. Ao mesmo tempo, finge modéstia. Segundo colocado nas pesquisas, atrás de Lula, afirma que "não precisam se preocupar com sua candidatura". "Sou o patinho feio da história, não tenho dinheiro", afirma.

Questionado se tem falado com empresários, banqueiros ou algum economista para orientá-lo a elaborar programa de governo, diz que sim, mas sem citar os nomes: "Já tive duas reuniões com o sistema financeiro no Rio. Tem um advogado amigo meu, em São Paulo, que me levou para um encontro com empresários. Tinha uns 15 pesos-pesados lá. Estou falando com um economista, sim, mas ele me pediu reserva porque se não todo mundo começa a procurá-lo"

 

 

Valor econômico, v. 17, n. 4297, 14/07/2017. Política, p. A7.