O Estado de São Paulo, n.45194 , 13/07/2017. Política, p.A13
Thiago Faria
Fabio Serapião / BRASÍLIA
Sem polêmicas e por 74 votos a favor e 1 contrário, a subprocuradora da República Raquel Dodge teve sua indicação ao comando da Procuradoria-Geral da República aprovada ontem pelo Senado. Ela será a primeira mulher a ocupar o cargo e vai substituir Rodrigo Janot, cujo mandato termina em 17 de setembro. O resultado superou as votações obtidas por seus antecessores – Janot e Roberto Gurgel.
Na sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que durou 7 horas e 20 minutos, Raquel defendeu a Lava Jato, disse ser favorável à gravação de investigados e ao fim do foro privilegiado. Foi questionada sobre temas como Lei de Abuso de Autoridade, delações premiadas e ouviu críticas à atuação do Ministério Público em casos envolvendo políticos.
Em nenhum dos temas deixou de se posicionar, mas sempre com acenos aos senadores, como ao tratar da Lei de Abuso de Autoridade, criticada por integrantes do Ministério Público e do Judiciário, mas defendida por políticos. A principal crítica é a possibilidade de punições de magistrados ou investigadores por interpretações divergentes da lei.
“Ninguém está imune a excessos, nenhuma instituição é imune a erros. E, nessa perspectiva de que seja dada ampla autonomia para o exercício da função jurisdicional por juízes e membros do Ministério Público, mas contidos os excessos, é que vejo a importância de se aprovar uma lei de abuso de autoridade”, afirmou Raquel.
Outro ponto que também levou a discursos inflamados dos senadores, a divulgação de delações premiadas foi criticada pela futura procuradora-geral. “Vazamentos são contra o Estado democrático de direito. É preciso adotar estratégias internas para não só impedir, mas prevenir o uso indevido dos vazamentos”, disse. Segundo ela, sua intenção é criar “cadeias de custódia” das informações sobre investigações no Ministério Público Federal para identificar responsáveis por vazamentos.
Ao tratar da Lava Jato, que tem como alvo 24 dos 81 senadores, Raquel reafirmou sua intenção de fortalecer a operação, “aumentando, se necessário, as equipes que a vem desenvolvendo”. Ela, no entanto, disse que a condução da investigação “será com base em provas e na lei”. “De forma serena e tranquila, para que evitemos aquilo que a Constituição assegura para todos, que é a proteção contra o aviltamento da dignidade da pessoa humana.”
Raquel foi questionada sobre a imunidade concedida pelo MP a delatores, em referência ao acordo firmado com o empresário Joesley Batista. “(A vantagem) deve estar em proporção com a colaboração. Aquele que colabora mais ganha uma vantagem maior. Mas sempre no limite da lei”, disse.
Encontro. À noite, o presidente Michel Temer recebeu Raquel no Palácio do Planalto. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Torquato Jardim, participou do encontro./COLABOROU CARLA ARAÚJO
Aval. Raquel teve 74 votos a favor e 1 contra, resultado melhor que de seus antecessores
Leonardo Augusto
ESPECIAL PARA O ESTADO BELO HORIZONTE
O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações cobra R$ 20,3 milhões do senador Aécio Neves (PSDB) e de três secretários de Estado por supostas irregularidades em convênio entre o governo federal e o de Minas Gerais em 2005. O tucano governou o Estado de 2003 a março de 2010.
O acordo foi firmado para a construção dos chamados centros vocacionais tecnológicos (CVTs), que oferecem, por exemplo, cursos nas áreas de empreendedorismo, informática e agricultura. Os ex-secretários do tucano citados pelo ministério são Bilac Pinto, Paulo Kleber Duarte Pereira e Alberto Duque Portugal, que comandaram a Secretaria de Ciência e Tecnologia.
Os centros foram construídos e funcionam. Porém, segundo apuração do ministério, teriam ocorrido irregularidades nos gastos que envolveram R$ 7,3 milhões em valores da época. Corrigidos, eles totalizam os R$ 20,3 milhões cobrados do senador e auxiliares. O total previsto para o projeto era de R$ 21,5 milhões. Em nota, o senador Aécio afirmou que os “ex-secretários de Ciência e Tecnologia estão apresentando suas defesas”.
Segundo o governo de Minas, uma sindicância interna foi aberta para apurar o caso. Em nota, o Estado, comandado hoje por Fernando Pimentel (PT), afirma que “no caso citado, ainda em 2015 uma Sindicância Administrativa foi instaurada pela própria Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior”. O governo Pimentel disse ainda que o tema citado refere-se à administração anterior.