Marcos Valério fecha delação com a Polícia Federal

Marcos de Moura e Souza, Murillo Camarotto e Ricardo Mendonça

20/07/2017

 

 

Um dos principais personagens do esquema do mensalão do PT, o publicitário Marcos Valério assinou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal em Minas Gerais na qual cita políticos e empresas como participantes e beneficiários de transferências ilegais de recursos ao longo de anos. Uma pessoa familiarizada com o acordo afirmou ontem ao Valor que entre os citados estariam o presidente Michel Temer, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, o senador e ex-governador de Minas, Aécio Neves (PSDB) e o atual governador Fernando Pimentel (PT). De acordo com essa fonte, Valério disse aos policiais que participou de repasses, via caixa dois, de recursos para campanhas de Aécio (a governador, 2002), FHC (1994 e 1998) e Lula (2002). Cada um teria recebido R$ 1 milhão da siderúrgica Usiminas. A empresa tem sede em Belo Horizonte e seus maiores acionistas são o grupo japonês Nippon e o argentino Terniun/Tenaris. Há ainda, segundo o mesmo relato, menções de irregularidades que envolveriam a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), empresa cujo controlador é o Estado de Minas Gerais. Não há informações sobre as circunstâncias em que Temer e Pimentel teriam sido mencionados por Valério e nem o contexto em que a Cemig aparece. Valério contou aos delegados episódios sobre pessoas que tiveram atuação nos esquemas do mensalão do PT e tucano de Minas e que voltaram a aparecer em crimes investigados pela Lava-Jato. Ontem, a Superintendência Regional da Polícia Federal em Minas informou que o acordo foi assinado no dia 6. No mesmo dia, Valério apresentou "vasta documentação" prestou depoimento.

"O acordo de colaboração premiada foi assinado na Polícia Federal em Minas Gerais e foi submetido ao Supremo Tribunal Federal, devido à necessidade de homologação do acordo, por envolver autoridades com prerrogativa de foro", disse a PF por meio de nota. "Devido à cláusula de confidencialidade constante do acordo, não há outras informações a serem prestadas." Em abril, o publicitário Duda Mendonça já havia firmado acordo com a Polícia Federal, o que gerou controvérsias, quando procuradores questionaram a participação da PF na celebração de delações. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, é contrário aos acordos feitos por policiais que, segundo ele, não têm competência legal para negociar penas. O advogado de Valério, Jean Robert Kobayashi, disse apenas os episódios narrados abrangem mais políticos que os citados nas delações da Odebrecht para a Operação Lava-Jato. Sua pretensão é que Valério deixe o quanto antes o regime fechado para o domiciliar e que seja perdoado de antemão de eventuais penas de outros processos. Dias depois da assinatura, ele foi transferido do presídio de segurança máxima Nelson Hungria, em Contagem (MG) para uma prisão em Sete Lagoas (MG), cujas condições são melhores. Valério está preso desde novembro de 2013. Foi condenado a 37 anos de prisão por crimes relacionados ao esquema de desvio de recursos e compra de votos de parlamentares da base no primeiro mandato de Lula (2003 a 2006). Ele era dono de duas agências de publicidade usadas no esquema de transferências irregulares de recursos para políticos. A assessoria do Planalto disse que só o advogado de Temer fala sobre assuntos dessa natureza se e quando houver alguma situação concreta. A assessoria de Fernando Henrique afirmou que ele está viajando com a família. O PT disse que todas as doações recebidas pelo partido foram dentro da lei. A assessoria de Pimentel disse que não há como comentar supostas menções a ele sem que se saiba em qual contexto seu nome aparece. E o advogado de Aécio, Alberto Toron, acusou Valério de fazer acusações "falsas e requentadas" e com o intuito de amenizar sua pena. A Usiminas disse que segue padrões de governança e que desconhece "a veracidade dos fatos, os quais teriam supostamente ocorrido há cerca de 20 anos, sendo que nenhum administrador à época é administrador da companhia atualmente". A Cemig não comentou até o fechamento desta edição.

 

 

Valor econômico, v. 17, n. 4301, 20/07/2017. Política, p. A9.