Título: Desafio ao Ocidente
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 16/02/2012, Mundo, p. 22
Presidente Ahmadinejad ignora sanções internacionais, celebra a produção de vareta de combustível nuclear enriquecido a 20% e anuncia uma nova geração de centrífugas. O regime vai construir mais quatro reatores
Oregime iraniano tripudiou sobre o Ocidente, ao revelar uma série de progressos em seu programa nuclear, apesar das sanções comerciais e financeiras impostas pela comunidade internacional. O presidente Mahmud Ahmadinejad testemunhou ontem a aplicação, no núcleo do reator de pesquisas de Teerã, da primeira vareta de combustível nuclear enriquecido a 20% e fabricado no próprio país. No sábado, ele havia prometido fazer um "grande anúncio nuclear nos próximos dias". A tevê estatal iraniana divulgou imagens do processo, acompanhado pessoalmente por Ahmadinejad; pelo líder da Organização de Energia Atômica, Fereydoon Abassi Davani; e por outras autoridades vestidas em jalecos brancos dentro do reator de pesquisas de Teerã. Mais cedo, o próprio Davani tinha confirmado a instalação de centrífugas de quarta geração na usina nuclear de Natanz, capazes de produzir três vezes mais urânio enriquecido. "É uma resposta forte a todas as sabotagens dos ocidentais", comemorou Abassi.
A atitude desafiadora da nação dos aiatolás não parou por aí. Em rede nacional de televisão, o presidente revelou que já possui 9 mil centrífugas em franca atividade, também em Natanz. "Seis centrífugas estavam em atividade, 3 mil novas foram sendo acrescentadas, aumentando seu número total a 9 mil", declarou Ahmadinejad. Ele ordenou ainda a construção de quatro novos reatores nucleares de pesquisa destinados à produção de radioisótopos para o tratamento do câncer. "Em conformidade com as necessidades do país, vamos construir esses reatores em quatro locais diferentes, para garantir as necessidades de pesquisa, assim como os radioisótopos de que o Irã precisa para seus doentes de câncer", comentou.
Teerã ameaçou, ainda, cortar as exportações de petróleo para seis países-membros da União Europeia, mas voltou atrás. Apesar do recuo, o Ministério das Relações Exteriores do Irã convocou os embaixadores de Itália, Espanha, Portugal e Grécia e exigiu que eles estendessem o contrato a longo prazo de compra do produto iraniano, sob pena de enfrentarem um corte no fornecimento. Segundo o jornal The Washington Post, os representantes de França e Holanda foram avisados de que seus países não mais receberiam o petróleo. Os supostos avanços no campo nuclear coincidem com uma série de atentados contra alvos israelenses na Índia, na Geórgia e na Tailândia, atribuídos ao Irã.
A produção artesanal de varetas de combustível atômico é vista com reservas por analistas, que não descartam um blefe de Teerã. No entanto, eles reconhecem que, caso seja confirmada, a façanha será considerada um salto gigantesco no programa nuclear iraniano (veja mapa). Para o Irã fabricar sua primeira bomba, teria que enriquecer urânio a 90%. Sob a condição de anonimato, um especialista em inteligência consultado pelo Correio considerou tal meta tecnicamente viável, desde que o país detenha urânio processado em larga escala a 20%.
Cético O norte-americano Miles A. Pomper — especialista do Centro para Estudos de Não Proliferação James Martin (em Monterey, na Califórnia) — admite ceticismo em relação às declarações de Ahmadinejad. Em entrevista ao Correio, por e-mail, ele lembrou que o Irã possui uma tendência de fazer anúncios sem provas, antes de importantes negociações. "É uma forma de barganha", explica. "Inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) devem visitar Teerã (na próxima segunda-feira), e o quadro de diretores está pronto para um grande debate sobre o Irã, em março", acrescenta.
Saeed Jalili, negociador nuclear iraniano, respondeu ontem a uma carta enviada quatro meses atrás por Catherine Ashton, por meio da qual a chefe de política externa da União Europeia propunha a retomada das negociações sobre o programa atômico. "O Irã saúda a prontidão do grupo dos seis (Rússia, EUA, Reino Unido, França, Alemanha e China) para retornar às negociações, a fim de obter passos fundamentais rumo a uma maior cooperçaão", afirma a mensagem de Jalili. De acordo com Pomper, mesmo que o desenvolvimento de centrífugas mais rápidas e eficazes seja algo real, é improvável que isso afete o ritmo de acúmulo de urânio enriquecido a 5% ou a 20%.
Ante os desdobramentos da crise nuclear, a Rússia advertiu as potências ocidentais a trabalharem com mais afinco para obter concessões de Teerã. Segundo o vice-chanceler Sergei Ryabkov, o desejo de compromisso do regime islâmico diminui, à medida que se aproxima da capacidade de produzir armas atômicas. "Há uma alternativa: a introdução de negociações sérias com o lado iraniano", comentou ele.
Polícia indicia suspeitos de explosões Dois iranianos suspeitos de envolvimento em uma série de explosões atribuídas por Israel ao Irã foram indiciados ontem em Bangcoc, e um terceiro envolvido foi preso na Malásia. Os serviços secretos tailandês e malaio tratam o assunto como um complô contra diplomatas israelenses. Dois dos suspeitos — um deles identificado como Said Morati, de 28 anos, que perdeu as pernas no ataque — foram detidos na terça-feira depois de uma série de explosões em circunstâncias ainda não esclarecidas, em um bairro residencial. Um terceiro suspeito, também de nacionalidade iraniana, conseguiu fugir para a Malásia, onde foi detido ontem. "É uma equipe de assassinos e seus alvos eram diplomatas israelenses, incluindo o embaixador", afirmou à agência France-Presse uma fonte do serviço de inteligência da Tailândia. "O plano era instalar uma bomba em um veículo diplomático", acrescentou.
Eu acho...
"O Irã precisaria enriquecer o urânio a 90% para usá-lo em armas. Todo esse processo provavelmente seria monitorado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Não podemos julgar as sanções internacionais como ineficientes, apenas por conta desses últimos episódios. Elas têm a meta de pressionar a economia e o governo do Irã, e têm feito isso, ao provocar uma desvalorização na moeda iraniana."
Miles A. Pomper, especialista do Centro para Estudos de Não Proliferação (na Califórnia)