O globo, n.30719 , 14/09/2017. PAÍS, p.4

‘Querida’, não, senhor

Gustavo Schmitt

Dimitrius Dantas

14/09/2017

 

 

AUDIÊNCIA TENSA / Depoimento do ex-presidente Lula a Sergio Moro tem clima tenso, tons irônicos, provocações e pedido de uma procuradora que exigiu tratamento impessoal do petista
 

Entre respostas incisivas, risos nervosos e silêncios diante de alguns questionamentos, o ex-presidente Lula adotou a estratégia de que a melhor defesa é o ataque no depoimento de ontem. Visivelmente irritado, chamou a atenção o seu tom irônico em alguns momentos. A postura do petista tornou tensa a maior parte da audiência.

Em certo momento, Moro advertiu Lula para não usar o tratamento “querida” ao responder às perguntas da procuradora Isabel Cristina Groba Vieira, que acompanhava o interrogatório. Depois da reclamação feita pela própria procuradora, Moro disse ter se esquecido de explicar que ele deveria usar o tratamento protocolar ao se dirigir às autoridades:

— Sei que o ex-presidente não tem intenção negativa em utilizar esse termo “querida”, mas peço que não utilize. Pode chamar de doutora, senhora procuradora.

Em diálogo divulgado em março de 2016 entre Lula e Dilma Rousseff, o petista despediu-se da então presidente dizendo “Tchau, querida”, frase muito usada por oposicionistas no processo de impeachment.

Em outro momento, mais de uma hora após o início da audiência, Lula acusou o Ministério Público de fazer “suposições e ilações” sobre a compra do apartamento vizinho ao seu em São Bernardo do Campo e disse que a menor preocupação dos procuradores era fazer provas para sustentar as acusações. Moro retrucou, dizendo que o petista estava “rancoroso” com o MP em função das acusações.

— Sr. ex-presidente, talvez o senhor esteja um pouco rancoroso, mas é a oportunidade que o senhor tem de — interrompeu Moro.

— Eu não estou rancoroso — retrucou Lula. Ao que Moro respondeu: — Então é natural que sejam feitas as perguntas.

Logo no início da audiência, Lula deixou transparecer a estratégia de atacar. Ao responder se queria falar na ação penal, o petista afirmou que o processo era “ilegítimo” e “injusto”. Moro reagiu com indiferença e explicou o rito da audiência. Perguntando em seguida se Lula queria retificar outros depoimentos já feitos à Justiça, o petista foi ríspido. Lula referia-se à acusação de que teria recebido vantagens da construtora OAS no caso do tríplex do Guarujá. O petista então atribuiu ao juiz o papel de acusador:

— Eu deveria mudar tudo porque o senhor me acusou.

— Eu não acusei — rebateu o magistrado.

Mais adiante, confrontado com a denúncia do MP sobre o não pagamento de aluguel por cinco anos de um apartamento vizinho à cobertura onde mora em São Bernardo, Lula reagiu com rispidez de novo.

— Nunca chegou qualquer reclamação de que o aluguel não estava sendo pago — esbravejou Lula. — Eu tô cansado de mentira sem provas.

O imóvel em questão pertence a Glaucos Costamarques, primo do pecuarista José Carlos Bumlai, que, segundo a Lava-Jato, teria atuado como laranja para ocultar a propriedade.

O ex-presidente também tentou desqualificar a Procuradoria-Geral da República e mirou o seu chefe, Rodrigo Janot, ao lembrar o episódio que levou à revisão do acordo de colaboração premiada com os executivos do grupo J&F:

— O MP é muito engraçado. Graças a Deus, como Deus escreve certo por linhas tortas, as coisas agora tão virando verdadeiras. Nós estamos vendo o que está acontecendo com Janot, com o Marcello Miller.

Em um outro momento, Lula duvidou da isenção do juiz. Ele perguntou a Moro se poderia falar aos seus netos que seria julgado de modo imparcial. Moro disse que não cabia esse tipo de pergunta, mas respondeu “sim”. (Colaborou Thiago Herdy)

 

"Sr. ex-presidente, talvez o senhor esteja um pouco rancoroso, mas é a oportunidade que o senhor têm"

Sérgio Moro

Juiz da Lava Jato