Título: Pesquisa científica fica comprometida
Autor: Mariz, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 27/02/2012, Brasil, p. 6

Pelo menos 40% dos estudos brasileiros no continente gelado foram prejudicados com o incêndio, mas cientistas afirmam que o acidente não encerra a atuação do país na região

O incêndio na Estação Comandante Ferraz, principal plataforma de pesquisas brasileiras na Antártida, foi considerado uma verdadeira tragédia para o meio científico brasileiro. Com o acidente de sábado, pelo menos 40% das atuais pesquisas estarão de alguma forma comprometidas, embora o nível do estrago ainda seja difícil de aferir. Pesquisadores garantem, no entanto, que os estudos na região devem continuar. Segundo o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Antártico de Pesquisas Ambientais, atualmente 70 pesquisadores e pelo menos 17 universidades brasileiras desenvolvem projetos na região.

Tida como uma das meninas dos olhos da ciência brasileira, a estação antártica nacional já ajudou no desenvolvimento, em 28 anos de existência, de diversas áreas do conhecimento. Desde ciências mais diretamente ligadas à região, como a climatologia, oceanografia e biologia, até outras mais distantes, como psicologia e arquitetura. As diferentes camadas de gelo que vão se sobrepondo ao longo do tempo permitem que pesquisadores entendam melhor a história geológica e climática da Terra, enquanto psicólogos estudam o comportamento humano em situações de confinamento, e arquitetos, a dinâmica de construções em lugares extremos.

Embora não existam dados atualizados, um levantamento de 2008 mostrou que 866 projetos de pesquisa nacionais haviam sido desenvolvidos na região, rendendo ao Brasil a publicação de quase 2,7 mil artigos. "O Programa Antártico Brasileiro é composto por uma ampla gama de projetos. A Base Almirante Ferraz funcionava como suporte para vários deles", conta a líder-geral do programa, a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Yocie Valentin.

A especialista se refere a outras frentes de pesquisa, que atualmente compõem 60% do que é estudado na Antártida. O navio de apoio oceanográfico Ary Rongel e o navio polar Almirante Maximiano possuem laboratórios de pesquisa e coleta que são usados em outras regiões do continente gelado, além do Módulo Criosfera 1, um laboratório a 2,5 mil quilômetros da estação nacional, que também envia dados para o Brasil.

O professor do Instituto de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Heitor Evangelista explica que o impacto do incêndio dependerá da área de estudos. "Meus trabalhos se concentram em dinâmica do clima e mudanças climáticas, portanto, no meu caso, não haverá problema. Mas pesquisadores de biologia marinha, por exemplo, provavelmente terão uma perda grande, porque dependiam mais da Comandante Ferraz", conta o pesquisador, que já esteve na Antártida 14 vezes.

Com a chegada dos pesquisadores, o impacto poderá ser mais bem avaliado. "Precisamos esperar o retorno dos pesquisadores e ver se eles conseguiram pegar seus computadores pessoais, dos quais poderemos extrair alguns dados", explica Yoce. Dependendo do que foi perdido, os especialistas precisarão trabalhar nos próximos anos na interpretação dos dados já coletados. "Sabemos que a estação será reconstruída, mas não é só isso. São necessários equipamentos, verba constante", completa Yocie, temendo o corte anunciado de 22% no orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Trabalho estratégico Mesmo sendo um processo difícil, a pesquisa na região é estratégica por duas características únicas da região: a Antártida está muito ligada às dinâmicas climáticas da Terra e, ao mesmo tempo, livre da ação direta humana. "A Antártida detém as respostas para muitos aspectos referentes ao ambiente global, incluindo mudanças climáticas. Ela nos oferece uma chance de entender como se desenvolvem os ecossistemas e suas respostas às alterações do clima", explica James Barnes, diretor-executivo da Coalizão para a Antártica e o Oceano do Sul, organização internacional que trabalha na promoção da pesquisa e preservação no continente antártico.

Segundo ele, a perda trazida pelo acidente na estação é ainda mais grave pois afeta não apenas a ciência produzida no Brasil, mas aquela que é feita em todo o mundo. "O Tratado da Antártida salienta a "ciência aberta", que significa que os resultados das pesquisas devem ser compartilhados entre os pesquisadores livremente", explica. "Neste contexto, a Antártida é uma empresa global de ciência comunitária."