Título: Reconstrução deve levar dois anos
Autor: Mariz, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 27/02/2012, Brasil, p. 6

Pesquisadores que trabalhavam na base destruída por incêndio voltaram ontem com promessa de uma nova estação até 2014

Serão necessários pelo menos dois anos para reconstruir a Estação Antártica Comandante Ferraz, que teve cerca de 70% de suas instalações destruídas pelo incêndio na madrugada de sábado, matando dois militares da Marinha e deixando um ferido. A previsão é do ministro da Defesa, Celso Amorim, que pretende começar hoje mesmo as discussões sobre como reerguer a base brasileira de pesquisas na Antártida, em funcionamento desde 1984. Um avião C-130 Hércules da Força Aérea Brasileira (FAB) trouxe ao Brasil as 45 pessoas que tiveram de deixar a estação no momento do incêndio.

Os brasileiros foram levados antes para a base chilena Eduardo Frei e, posteriormente, para o continente, na cidade de Punta Arenas, no extremo sul do Chile. De lá, partiram às 16h de ontem no avião brasileiro, que fez uma escala em Pelotas (RS) para deixar quatro pesquisadores. Em seguida, o voo partiu para a Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, com previsão de chegada para 1h de hoje. Entre os passageiros, estavam o primeiro-sargento Luciano Gomes Medeiros, que se feriu durante o incêndio, 30 pesquisadores, um alpinista, um representante do Ministério do Meio Ambiente e 12 funcionários do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Ficaram na Antártida 14 militares, que trabalharão na avaliação do incêndio e na investigação.

Os corpos do suboficial Carlos Alberto Vieira Figueredo e do primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos estavam na base chilena Eduardo Frei e devem ser trazidos hoje por um avião da FAB para o Brasil. Até a noite de ontem, a Marinha aguardava condições meteorológicas para transportá-los a Punta Arenas, de onde serão trazidos para o Brasil. A família do suboficial Figueiredo deve chegar ao Rio de Janeiro nesta segunda-feira. "Devemos ir amanhã (hoje) para saber o que fazer. Antes acho que haverá uma cerimônia de honras militares, mas ainda não sabemos. As informações demoram a chegar", lamenta o filho mais velho do suboficial, Marcos Vinícius Costa Figueiredo. Ele é aspirante a oficial da Polícia Militar da Bahia em Vitória da Conquista, onde trabalha no 77ª Companhia Independente Militar.

Segundo informações divulgadas pela Marinha, o prédio principal da Estação Antártica Comandante Ferraz foi completamente atingido pelo incêndio. Era nessa área onde ficavam a parte habitável e alguns laboratórios de pesquisas. Somente os recintos isolados da estrutura principal permaneceram intactos — módulos protegidos para casos de emergência, com tanques de combustíveis, o heliponto da base, além dos laboratórios de meteorologia, de química e de estudo da alta atmosfera.

As causas do acidente só serão conhecidas ao final do inqúerito policial militar, já instaurado. Há especulações sobre problemas com o etanol, combustível utilizado na base, e de superaquecimento dos geradores. De acordo com a Marinha, não é possível, no momento, apontar para nenhuma possível causa.

Desenho moderno Segundo o ministro Celso Amorim, a nova base deverá ter uma configuração mais moderna. "A nossa ideia é imediatamente, já, chamar arquitetos para fazer desenhos, inclusive um desenho mais novo. Não estou dizendo que foi por isso que aconteceu o incêndio, mas, obviamente, a base começou há 30 anos, então, ali ela foi agregando um pedaço ou outro. Agora já podemos pensar em uma coisa para o futuro, digamos, de maneira mais completa, mais orgânica", prometeu Amorim.

O presidente do Chile, Sebastian Piñera, ofereceu ajuda para a reconstrução da base brasileira, durante conversa por telefone com a presidente Dilma Rousseff. Conforme comunicado publicado pelo governo chileno, a mandatária brasileira agradeceu os esforços dos militares do país, responsáveis por encontrar os corpos dos dois integrantes da Marinha brasileira que morreram no acidente, e prometeu uma visita ao Chile em breve. Em nota, Dilma manifestou, na noite de sábado, "grande consternação" diante da notícia do incêndio na Antártida e ressaltou "a firme disposição do país de reconstruir a Estação Antártica Comandante Ferraz". A presidente prestou "solidariedade às famílias dos dois militares, mortos ao servir a Pátria".