Título: Farc renunciam a sequestros de civis
Autor: Vicentin, Carolina
Fonte: Correio Braziliense, 27/02/2012, Mundo, p. 12

Guerrilha também anuncia que 10 policiais e militares, considerados pela organização os últimos "presos políticos" em seu poder, serão libertados com a ajuda do governo brasileiro As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) anunciaram a libertação de todos os reféns considerados "presos políticos" e a interrupção dos sequestros de civis, usados como forma de financiar o movimento. Segundo os guerrilheiros, 10 militares e membros da polícia colombiana, em cativeiro há mais de 10 anos, serão soltos. No anúncio, as Farc reconhecem o papel do governo brasileiro na mediação do conflito. O Ministério da Defesa vai enviar, pela quarta vez, homens e helicópteros para auxiliar no resgate dos reféns. A mensagem provocou o alívio dos familiares de reféns e foi comemorada pelo presidente Juan Manuel Santos.

Os guerrilheiros anunciaram a medida por meio de um comunicado divulgado na manhã de ontem pela internet. A organização paramilitar já havia concordado em libertar seis homens, que seriam entregues ao governo colombiano em uma operação com participação brasileira. "Queremos comunicar nossa decisão de somar à anunciada libertação dos seis prisioneiros de guerra a dos quatro restantes em nosso poder", dizia o texto, assinado pelo Secretariado do Estado Maior das Farc. No documento, os guerrilheiros agradecem "a disposição generosa do governo que preside Dilma Rousseff e que aceitamos sem vacilar." O Ministério da Defesa brasileiro já atuou na libertação de reféns outras três vezes. É provável que a nova ação ocorra até o fim de março.

Além da soltura dos militares e policiais, as Farc se comprometeram a não mais sequestrar membros da sociedade civil, em uma prática chamada de sequestro extorsivo. "A partir desta data, banimos essa prática da nossa atividade revolucionária. É hora de começar a esclarecer para que fins ocorrem sequestros na Colômbia", escreveram os guerrilheiros. Ainda hoje, muitas pessoas estão em cativeiro para que a organização consiga se sustentar com o dinheiro dos resgates. "Valorizamos o anúncio das Farc de renunciar ao sequestro como um passo importante e necessário (para o fim do conflito), mas não suficientemente na direção correta", afirmou Juan Manuel Santos. Jairo Libreros, professor especialista em segurança na Universidade Externado de Colombia, também fez ressalvas. "O anúncio de hoje (ontem) é um bom sinal, mas não atende a realidade do conflito colombiano. Ainda há muita gente sequestrada por motivos econômicos", disse ao Correio. Segundo Libreros, há 99 civis nessa situação.

Quando soube da mensagem da guerrilha, Juan Manuel Santos comemorou. "Nos alegramos muito pelos 10 sequestrados que serão libertados e por suas famílias. O governo dará garantias sem circo midiático", escreveu o presidente em sua conta no Twitter. Santos afirmou, em diversas ocasiões, estar disposto a negociar com a organização, mas foi categórico ao dizer que não adotará uma cobertura midiática especial para a libertação de reféns. O governo também não aceita dar benefícios judiciais para os guerrilheiros que abandonarem as armas.

Estratégia Para Libreros, a mensagem divulgada ontem tem, ainda, outros objetivos. Há cerca de três semanas, o serviço de inteligência da Colômbia indicou que o líder das Farc, Timoleon Jimenez, o Timochenko, teria voltado ao país e estaria em um lugar conhecido pelo governo. "Muito provavelmente, a guerrilha decidiu anunciar a libertação dos reféns para reduzir a atenção e poder enviar segurança a Timochenko", aposta. O analista lembra que havia mais presos políticos com os guerrilheiros. "O governo chegou a falar em 12 pessoas, e as associações de vítimas dizem que há mais. Seguramente, são pessoas que perderam a vida em cativeiro, então as Farc nem sequer falam disso", esclarece.

No caminho da paz, ainda há outro problema apontado por Libreros: a própria divisão das Farc. Dentro da guerrilha, há pessoas muito interessadas em se aproximar do governo, diminuir as ofensivas e buscar alternativas para a solução do conflito, mas há também líderes que apostam na guerra e não acreditam em um acordo com Santos. "Qualquer grupo armado que tenha problemas de comando em matéria de condução de hostilidades dificilmente pode se comprometer a um cessar-fogo. O máximo que pode acontecer agora é levar a um princípio de acordo, que seria renunciar ao terrorismo e ao narcotráfico", opina o especialista.