Título: Sinal verde para o verde
Autor: Hessel, Rosana ; Freitas, Jorge
Fonte: Correio Braziliense, 20/02/2012, Economia, p. 8/9
Sexta economia do mundo, Brasil está longe do desenvolvimento sustentável. Ascensão de 40 milhões à classe média aumentou o consumo de eletricidade e o volume de resíduosNotíciaGráfico
Toda sexta-feira, a pedagoga Darlene Bento Luiz, 45 anos, de Brasília, vai a pé com a filha, Cecília, 8 anos, para a escola. Nos outros dias da semana, as duas percorrem o mesmo trecho de cinco quilômetros de automóvel. "Pedi à minha mãe para irmos caminhando porque o carro polui o ar", explica a aluna da terceira série do ensino fundamental. Na escola, ela aprendeu a fazer porta-lápis, flores e casinhas com material reciclado. A mãe relata que os lixos seco e molhado são separados há muito tempo em sua casa, apesar de os caminhões da limpeza pública misturarem tudo. Nas idas à padaria e ao supermercado, as sacolas descartáveis de plástico deram lugar às retornáveis.
A família de Darlene ilustra uma realidade na qual os filhos incentivam os pais a adotar um relacionamento mais harmonioso com o meio ambiente. Os exemplos são muitos, mas o desafio a ser superado ainda é imenso. "O Brasil precisa investir em pesquisa e educação para acompanhar a mudança aceita com naturalidade pela nova geração, mais esclarecida", diz a pedagoga.
O Brasil ultrapassou o Reino Unido e conquistou o posto de sexta maior economia do mundo, mas ainda está longe de encontrar soluções acertadas para o desenvolvimento sustentável, que permitirá o seu crescimento com um impacto mínimo no patrimônio ambiental. Com o aumento do poder aquisitivo da população, essa tarefa tem ficado cada vez mais complexa. A ascensão de 40 milhões de brasileiros à classe média nos últimos 10 anos pressionou não apenas o consumo de energia, mas também aumentou a quantidade de resíduos. "Em 2010, o país produziu 61 milhões de toneladas de lixo e coletou 54 milhões. Os 11% restantes estão nas ruas, entupindo bueiros, provocando enchentes e transmitindo doenças", comenta Adriana Ferreira, coordenadora do departamento técnico da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abracelpe).
Naquele ano, o volume de resíduos sólidos urbanos aumentou 6,8% em relação a 2009, quase sete vezes mais que o crescimento da população. "O país precisa rever seus hábitos", analisa Adriana. Quase metade dos resíduos coletados, 23 milhões de toneladas, foi parar em lixões ou locais inapropriados. Para piorar, o Ministério das Cidades calcula que a coleta seletiva do lixo é praticada em apenas 34,9% dos 5,5 mil municípios brasileiros.
Iniciativas A nova classe média está ávida por consumir e não quer levar para casa apenas iogurte e carne e realizar viagens. Ela compra e troca, com cada vez mais frequência, carros, celulares e eletrodomésticos. A indústria é generosa em lançamentos e novidades tecnológicas, o que contribui para aumentar a montanha de produtos descartados. Além disso, o Brasil recicla muito pouco — somente 13% dos resíduos, metade do total reaproveitado nos Estados Unidos ou no Reino Unido. "A tendência é que as empresas tomem suas próprias iniciativas sustentáveis sem esperar pelo governo", comenta Adriana.
As lojas das operadoras de telefonia começam a dar exemplos nesse processo. Muitas mantêm pontos para coletar celulares e baterias antigas, que, depois, são enviados aos fabricantes para reciclagem de metais nobres (cobre, platina e ouro). A centenária Whirlpool — dona das marcas de eletrodomésticos Brastemp, Consul e KitchenAid — já reutilizou, na fábrica de Joinville (SC), pelo menos 270 toneladas de metal e plástico desde 2002.
Consciente da paixão dos filhos, Samuel, 10 anos, e Tomas, 8, pelos eletrônicos, o sociólogo Tadeu Maia, 41, sabe que casos como o da Whirlpool são isolados e tenta minimizar o impacto no meio ambiente comprando baterias com mais tempo de vida útil e pilhas recarregáveis. "Essas são contribuições da tecnologia para o meio ambiente", diz. Tadeu conversa muito com os meninos sobre a importância de reservar tempo para os estudos, mas confessa que tem aprendido com a nova geração. Samuel, por exemplo, reclamava quando via o pai falando ao celular enquanto dirigia. "Agora, quando o telefone toca, ele passa para mim e eu atendo", diz o garoto.
A professora Áurea Márcia Jales Bicalho, 47 anos, também fez uma revolução de hábitos em sua chácara, no Lago Norte, no Distrito Federal. Inspirada em um livro, Áurea ensinou as filhas e o caseiro sobre a importância de não matar animais, para manter o equilíbrio ambiental. "Quando chegou, o caseiro queria matar todas as cobras que entravam aqui. Com o tempo, ele passou a cuidar tanto dos animais quanto das plantas", lembra.
Para a servidora pública Carla Fabro, 45 anos, as lições vieram de sua filha, Beatriz Neri, 9 anos. Ao recolher material reciclável para um projeto de sua escola, a menina falou para a família sobre a importância de reaproveitar embalagens. "Além de usar menos sacolas, reduzimos o consumo em geral. A propaganda é muito forte e leva as pessoas a comprar como se isso fosse sinônimo de felicidade", pondera Carla.
Amazônia Dono de um solo riquíssimo e de 12% das reservas de água doce do planeta, o Brasil tem tudo para se firmar como celeiro do mundo. Ambientalistas denunciam, porém, que esse patrimônio está ameaçado. Eles consideram que parte dos volumes recordes de exportações deve-se à devastação de florestas tropicais, o que reflete diretamente no clima mundial. "Hoje, os grandes problemas climáticos, como as grandes secas e as inundações, ocorrem com mais frequência. Os efeitos são devastadores", alerta Cláudio Maretti , líder da Iniciativa Amazônia Viva, do WWF. A coordenadora no Brasil da organização não governamental britânica Oxfam, Muriel Saragoussi, faz o mesmo alerta. "Quase um bilhão de pessoas passam fome no mundo. Há 20 anos, eram 850 milhões", compara.
Falta de água Mapeamento da margem direita do Rio Amazonas feito pela Agência Nacional de Águas (ANA), previsto para ser apresentado em junho, na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), revela que 16% da vegetação do local foi extinta. "São 250 mil quilômetros quadrados, quase a área do estado de São Paulo", explica ao Correio o superintendente de planejamento de recursos hídricos do órgão, Ney Maranhão. Ele acrescenta que 47% da poluição dos rios brasileiros vêm dos esgotos, já que apenas uma pequena parcela recebe tratamento.