Título: Em campanha, Putin dá força aos militares
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 21/02/2012, Mundo, p. 13

A 14 dias das eleições presidenciais, premiê anuncia que pretende rearmar o país e superar o atraso tecnológico das Forças Armadas. Investimentos, segundo ele, vão fomentar a economia

Na reta final da campanha eleitoral, o primeiro-ministro e presidenciável, Vladimir Putin, anunciou ontem que o país vai passar por um "rearmamento" sem precedentes e que o avanço de seu complexo militar-industrial será o foco do desenvolvimento nacional. A determinação política, que lembra as medidas do período em que a nação integrava a União Soviética (URSS, 1922-1991), mostra que uma ação prioritária do governo deve ser responder à instalação, feita pelos Estados Unidos e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), de um escudo antimísseis na Europa. Para isso, a ideia do ex-presidente, que busca conquistar o terceiro mandato, é reforçar o sistema de defesa aérea e espacial russa.

"Temos que construir um novo Exército. Moderno, capaz de ser mobilizado a qualquer momento", escreveu o premiê, que ocupou a Presidência entre 2000 e 2008, em artigo publicado no jornal oficial Rosiskaya Gazeta. Putin criticou o fato de as Forças Armadas russas terem sido deixadas de lado na década de 1990, época em que "outros países aumentavam constantemente suas capacidades militares". Nos próximos 10 anos, disse Putin, serão investidos 23 bilhões de rublos (cerca de R$1,324 bilhão) no projeto, de modo a superar o atraso tecnológico no setor militar em comparação às grandes potências mundiais e fazer com que a nação volte a ser líder nessa área.

No fim desse prazo, a expectativa é que sejam entregues "400 mísseis balísticos modernos, oito submarinos estratégicos, 20 submarinos polivalentes, mais de 50 navios de superfície, cerca de 100 veículos espaciais militares, mais de 600 aviões modernos, mais de mil helicópteros e 28 baterias antiaéreas S-400", enumerou Putin, que passou os últimos quatro anos fora da presidência, ocupada pelo aliado Dmitri Medvedev, porque estava constitucionalmente impedido de governar pela terceira vez consecutiva. Ele garantiu que a renovação do complexo militar-industrial "se converterá em uma locomotiva para o desenvolvimento dos mais diversos setores", como o espacial, o "ciberespaço" e o de elaboração de armas com efeito "geofísico, por raios, ondas, genes, psicofísico".

Economia Foi o sexto artigo escrito pelo primeiro-ministro e publicado pela imprensa russa antes das eleições. No texto, Vladimir Putin determinou que a União Soviética acabou — fato que considerou a "maior catástrofe geopolítica do século 20" — por ter desconsiderado as tendências de mercado, o que afundou a economia da república. Para ele, os investimentos no Exército, na Marinha e na Aeronáutica são os fatores que vão modernizar a economia nacional e recuperá-la. O presidente do Instituto de Análises Estratégicas de Moscou, Alexander Konovalov, discordou do premiê e chamou suas ideias de ultrapassadas. "O conceito de que se pode dar um salto à frente na economia graças ao complexo militar-industrial está superado desde os anos 1950", advertiu.

Ainda assim, a iniciativa divulgada ontem já vem sendo posta em prática. O governo da Rússia havia anunciado, em 2011, que gastaria cerca de 500 bilhões de euros (R$1,13 trilhão) em seu plano de modernização do Exército. Com isso, os militares tiveram seus salários praticamente triplicados em 1º de janeiro e, como ressaltou Putin em seu texto, o contingente será profissionalizado e reduzido, passando de 1 milhão de homens para apenas 145 mil recrutas em 2020.

R$ 1,3 bilhão Total que será investido na próxima década na modernização do setor militar