Título: Tragédia na Antártida
Autor: Mariz, Renata ; Gama, Júnia
Fonte: Correio Braziliense, 26/02/2012, Brasil, p. 8

Incêndio em base brasileira na Ilha Rei George mata dois militares e deixa um ferido

Um incêndio na madrugada de ontem, por volta das 2h (horário de Brasília), destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz, base militar de pesquisa do Brasil na Antártida, matando o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos. Um sargento, também da Marinha, ficou ferido. Os 15 militares que permaneceram na base para tentar controlar as chamas receberam ajuda de navios e botes poloneses, argentinos e chilenos. À tarde, foram retirados do local devido ao mau tempo. Assim que for possível, uma comissão do grupo voltará à estação, com o apoio do navio Lautaro, do Chile, para avaliar os estragos. Um inquérito policial militar já foi instaurado para apurar as causas da tragédia.

O fogo se alastrou a partir da praça de máquinas, onde ficam armazenados os geradores de eletricidade. "Com a perda dos geradores, não há energia para bombear água do mar para apagar o fogo", explica Simões. O militar ferido, o primeiro-sargento Luciano Gomes Medeiros, recebeu os primeiros socorros em Punta Arenas, no Chile, para onde foram enviados, em aeronaves chilenas e argentinas, os 44 brasileiros que estavam na base na hora da tragédia. No grupo, estão 30 pesquisadores, um alpinista que presta apoio às atividades científicas na estação, um representante do Ministério do Meio Ambiente e 12 funcionários da Marinha no Rio de Janeiro. Medeiros estava na Antártida havia cerca de um ano e voltaria ao Brasil no fim de março. A Marinha não detalhou o estado de saúde dele, limitando-se a informar que o sargento não corre risco de morrer.

Na madrugada de hoje, uma aeronave da Força Aérea Brasileira estava programada para partir de Pelotas (RS) rumo a Punta Arenas, com militares e equipamentos para serem usados na investigação da causa do incêndio. A previsão é que o avião retorne ao Rio de Janeiro à tarde.

Informado sobre o incêndio, o ministro da Defesa, Celso Amorim, manifestou "consternação" e afirmou ter comunicado a presidente Dilma Rousseff sobre o ocorrido. O titular da Defesa também fez contato com os colegas da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, e do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, para discutir as próximas ações em relação ao incêndio e às perdas. Instalada em 1984, a base tinha uma estrutura que contava com laboratórios científicos, dormitórios, cozinha industrial, áreas para lazer (como academia, churrasqueira e biblioteca) e instalações para as embarcações usadas nas expedições.

Pela duração do incêndio e o alto valor dos equipamentos usados na base, o prejuízo ainda não pode ser calculado. O cientista Jefferson Cardia Simões, coordenador da Expedição Criosfera, um dos estudos em curso na Antártida, estimou as perdas em cerca de R$ 20 milhões, considerando apenas as instalações e os utensílios dos laboratórios da estação.

De acordo com o pesquisador, que estava no Brasil quando o incêndio ocorreu, outros incidentes antecederam o incêndio de ontem. "O programa antártico enfrenta um momento muito delicado. Temos um navio há mais de dois meses quebrado em Punta Arenas. Depois, veio o naufrágio com 10 mil litros de óleo na Antártida em dezembro, e agora esse incêndio", desabafa. Jefferson atribui os problemas à falta de estabilidade financeira do projeto. "Houve ano, no governo Lula, que a área científica chegou a receber R$ 12 milhões. Neste ano, temos R$ 1,2 milhão. É difícil fazer pesquisa com tanta incerteza financeira."