Título: Querem que a Síria sucumba a um complô
Autor: Khaddour, Morammed
Fonte: Correio Braziliense, 26/02/2012, Mundo, p. 18
Entrevista - Mohammed Khaddour Para o embaixador da nação árabe no Brasil, a imprensa internacional e "partes" inimigas do governo incitam a violência em seu país
Renata Tranches
Em meio a pressões e condenações ao regime de Bashar Al-Assad, uma dividida comunidade internacional defende ora uma solução política negociada para a Síria, ora a necessidade de armar grupos opositores. Nesse contexto, cada apoio ou posição favorável a Damasco tem peso de ouro. Visto como um importante mediador, o Brasil voltou a ter, depois de três anos, um embaixador sírio na representação em Brasília, onde, até então, quem respondia era o encarregado de Negócios. Mohammed Khaddour, 56 anos, recebeu as credenciais da presidente Dilma Rousseff na quinta-feira e, desde então, é o novo embaixador sírio no país.
Ex-relações públicas do Parlamento da Síria, Khaddour, em entrevista exclusiva ao Correio, acusa "partes regionais e internacionais" de incitar a violência para desestabilizar seu país. Para ele, o Brasil tem boas relações tanto com a Síria como com essas "partes", o que o torna capaz de mediar uma solução pacífica para a crise.
Enquanto isso, a violência segue no país em proporções assustadoras, na visão dos opositores e de organizações humanitárias. De acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), a cidade de Homs estava ontem sob o 22º dia consecutivo de bombardeio. Nove civis teriam morrido no bairro de Baba Amr. O embaixador, porém, argumenta que a situação é muito menos grave do que fazem parecer as "fontes da mídia internacional".
A nação árabe passará hoje por um referendo sobre a reforma de sua Constituição, o que, segundo Khaddour, faz parte de um cronograma de medidas anunciadas pelo presidente Bashar Al-Assad para atender às demandas pleiteadas pela população. Questionado como o referendo poderia ajudar na solução da crise, uma vez que grupos opositores conclamaram seu boicote, o embaixador indaga sobre quem seria essa oposição, que, "até o presente momento, não tem uma cara".
Como o senhor explica o que está ocorrendo na Síria? Deixei a Síria há apenas três meses. Lá, vivia em Damasco, onde vivenciei a crise da qual a imprensa tem falado de um modo bastante exagerado. O que a imprensa brasileira vem divulgando sobre a crise na Síria, tirado de fontes da mídia internacional, não tem relação com a verdade. O que acontece na Síria é que existiam reivindicações que estavam sendo pleiteadas de forma legal pelos cidadãos que queriam melhorias e reformas no país. O governo da Síria atendeu a todos esses pleitos legais. Ele anunciou várias medidas, mas algumas partes regionais e internacionais se aproveitaram desse momento para incitar, aumentar e alimentar uma crise e levar a um estado de violência para que se chegasse à crise que existe hoje. E elas começaram pela incitação dos meios de comunicação pelos quais vocês recebem as notícias. Essas partes forneceram armas e dinheiro para alguns dos elementos que incitaram a revolta. O objetivo de tudo isso é que a Síria entre em um esquema e faça parte de um plano ocidental para a região. Mas a Síria é um país soberano, independente, que não precisa e não segue tendências de outros países.
Uma dessas medidas é a nova Constituição sobre a qual um referendo será realizado neste domingo, mas grupos opositores não concordam com ela e chamam ao boicote. Como o projeto poderá colaborar para solucionar a crise? A Constituição faz parte de uma série de medidas que estão sendo adotadas pelo bem da Síria. O anúncio desse novo projeto não é nenhuma novidade, porque, como se sabe, na história moderna da Síria, nossa Constituição já foi mudada várias vezes para se adequar ao desenvolvimento e à realidade do país. Seu conteúdo não existe em nenhum outro país da região, incluindo aqueles que atacam a Síria e se posicionam contra ela. Quanto à oposição, ou grupos oposicionistas, vocês, como imprensa, poderiam identificar quem é essa oposição, porque, até o presente momento, ela não tem uma cara, não apresentou nenhum projeto consistente e se dedica apenas a atacar e estabelecer um estado de violência e degradação do país. Por outro lado, temos mais de 80% da população da Síria apoiando o presidente Bashar Al-Assad, o regime e a integridade da nação.
Quem são essas partes internacionais a que o senhor se refere e por que querem desestabilizar a Síria? Acho que você, por ser uma jornalista, já deve saber quem são essas partes. Quanto aos interesses, eles querem que a Síria faça parte de um esquema, sucumba a um complô que, ao final, tem como objetivo controlar a região inteira para que ela seja explorada e aproveitada segundo seus interesses, tanto no aspecto dos recursos humanos, quanto dos naturais.
Nesse contexto, e também com as discussões acerca de bombardear ou não o Irã, aliado sírio, o senhor vê algum interesse em derrubar o regime como uma maneira para atingir a nação persa? Não, não acredito nisso. A Síria é um país soberano e independente, tem uma posição geopolítica própria, assim como o Irã. É uma situação completamente diferente.
Por que a Embaixada da Síria no Brasil ficou três anos sem embaixador, sob responsabilidade do encarregado de Negócios, Ghassan Obeid, que passou a ocupar o posto de cônsul-geral em São Paulo? Tanto o embaixador como o encarregado de Negócios têm as mesmas atribuições quando estão à frente da embaixada. Em alguns países amigos, as representações ficaram sem embaixadores, conduzidas por encarregados de Negócios, mas com certeza isso não afetou as relações entre a Síria e o Brasil, que continuaram da mesma forma. Temos uma relação de profunda amizade com o Brasil e uma grande consideração com suas posições de apoio à Síria e aos processos justos para o Oriente Médio. Isso não se afeta pela presença ou não de um embaixador. A Síria tem excelentes relações com a maior parte dos países do mundo, mas nosso Ministério das Relações Exteriores não tem quadro suficiente para cobrir todos esses países com um embaixador. Às vezes, o ministério é obrigado a buscar embaixadores dentro da estrutura do governo, que não são diplomatas de fato. Esse é o meu caso, que antes trabalhava com a mídia, depois como Relações Públicas no Parlamento e, agora, como embaixador, pela primeira vez.
O senhor mencionou as posições do Brasil. Como o país pode colaborar para uma solução na crise da Síria, uma vez que não ocupa mais a posição de membro não permanente no Conselho de Segurança da ONU? O Brasil é um país amigo da Síria. Acreditamos que a solução para a crise está no fim das incitações (por meio da mídia) e do fornecimento de dinheiro, armas e de elementos políticos aos grupos que se dizem oposicionistas. O Brasil também tem boas relações com as partes que abastecem esses grupos e pode desempenhar um papel importante para que cessem esse apoio e se convoque uma solução pacífica para a Síria.
O senhor mencionou a influência de agentes e interesses externos na Síria, mas organismos internacionais, como a Liga Árabe e a ONU, por meio da Comissão Independente de Inquérito sobre a Síria, presidida pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, têm denunciado mortes e abusos dos direitos humanos pelo regime. Quanto à Liga Árabe, combinamos de cooperar para resolver a crise. Assinamos um protocolo que previa o envio de observadores para que eles testemunhassem e fizessem uma análise precisa de tudo que se passava na Síria, mas, quando esses observadores chegaram e assistiram pessoalmente aos atos de destruição, terrorismo e violência cometidos por grupos armados, e demonstraram a intenção de relatar o que viram, eles foram retirados da Síria. Esse tipo de atitude só pode ser adotada por alguém que esteja com uma posição hostil com relação à Síria e a seu povo. Depois, a questão foi transferida para as Nações Unidas, aos seus organismos e ao Conselho de Segurança. Os organismos que prepararam os relatórios enviados à ONU e ao Conselho de Segurança foram elaborados a partir de informações de fontes hostis, ilegais, que não querem de forma alguma o bem da Síria.
Mas os investigadores alegaram não ter tido autorização para entrar no país e verificar a situação in loco. Quanto à comissão de direitos humanos, o presidente dela é um brasileiro. Por conta das excelentes relações históricas e de amizade entre o Brasil e a Síria, o regime permitiu que ele entrasse na Síria, para que pudesse confirmar pessoalmente os fatos. Quanto aos outros membros da comissão, há uma investigação interna das violações que ocorreram no país e informaremos a eles o que já está sendo realizado. Assim que esses trabalhos estiverem prontos, eles serão convidados a ir à Síria, quando apresentaremos esses relatórios e discutiremos todas as informações que eles precisarem saber.
O Conselho de Direitos Humanos nomeou o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan como enviado especial para a Síria. O que o regime achou dessa decisão? Ele é bem-vindo.
E se ele pedir para entrar no país? Daremos as boas-vindas.
Como a Síria sairá dessa situação? Em primeiro lugar, temos de ver a crise do ponto de vista da realidade e não daquele que está sendo divulgado pela imprensa internacional. A realidade é que mais de 80% da população continua solidária às lideranças e ao regime sírio. Todos eles aplaudiram e estão muito felizes com as medidas que estão sendo adotadas na Síria. Querem que a solução da crise seja interna, que chegará no momento em que esses países que hostilizam a Síria pararem de apoiar os grupos armados com o fornecimento de dinheiro e armas para incitar a violência. Só assim poderemos reunir os cidadãos sírios que amam sua pátria, para que sentem em uma mesa de diálogo e cheguem a um consenso. A solução virá na continuidade ao processo de reformas e da captura desses terroristas armados que ameaçam tanto as forças de segurança como o Exército e a população civil na Síria.
O senhor demonstrou preocupação com o que vem sendo divulgado pela mídia internacional. Nesta semana, dois jornalistas morreram na Síria. Assim como eles, outros correspondentes estão ilegalmente no país ou alegam que não conseguem permissão para entrar na Síria. Em primeiro lugar, gostaria de afirmar que mais de 200 jornalistas foram autorizados a entrar no país, representantes de grandes veículos internacionais, desde o início da crise. Dos jornalistas credenciados, temos os nomes, mas há os que entraram de forma clandestina. Fora isso, praticamente todos os meios de comunicação importantes internacionais têm representantes fixos na Síria, mas, cada vez que um grupo de jornalistas entrava na Síria, aumentavam as incitações de violência, o que fazia com que a crise se aprofundasse. Eles adotavam uma linha de edição subjetiva e que alimentava esse estado de violência. Você acha que é certo fazer noticiário no qual você escreve "cerca de x pessoas fizeram tal coisa"? O perigo de tudo isso está no fato de que organizações como as Nações Unidas e a comissão de direitos humanos se baseiam nesse tipo de depoimento para se posicionar com relação à Síria.