Correio braziliense, n. 20008, 02/03/2018. Economia, p. 7

PIB sobe 1% em 2017 e volta ao nível de 2011

 
Simone Kafruni
Hamilton Ferrari

 

 

Após dois anos de retração, a economia brasileira saiu do fundo do poço em 2017. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1%, depois de encolher 3,5% em 2015 e outros 3,5% em 2016, divulgou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quem puxou a recuperação do país foi a agropecuária, com alta de 13%, o melhor desempenho anual do setor desde 1996, início da série histórica. Apesar do crescimento, a expansão da atividade econômica, no ano passado foi um pouco menor do que a expectativa do mercado, que apostava em alta de 1,1%.

O presidente, Michel Temer, comemorou o resultado. “Eu cumpri o que escrevi no documento Ponte para o Futuro: coloquei a economia do Brasil de pé outra vez. Agora podemos avançar. Não vou deixar o país andar para trás”, escreveu no Twitter. Em vídeo divulgado à noite nas redes sociais, o presidente voltou ao tema. Para ele, o crescimento do PIB pode chegar a 3% em 2018. “Isso significa a possibilidade de criarmos, neste ano ainda, mais 3 milhões de novos empregos, que se somarão ao 1,8 milhão de postos de trabalho obtidos nos últimos meses”, disse.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, destacou o crescimento de 2% dos investimentos no último trimestre de 2014 para concluir que a economia vai continuar se expandindo de forma sólida. “É um avanço grande, que confirma nossas expectativas de um crescimento de 3% em 2018”, reforçou. No quarto trimestre, frente ao terceiro, o PIB teve alta de apenas 0,1%. Apesar de perder fôlego, foi o quarto resultado trimestral positivo seguido.

O aumento dos investimentos no fim do ano também foi o argumento usado pelo ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, para observar que “o país inaugura um novo ciclo de expansão”. “O quarto trimestre apresentou crescimento do PIB de 2,1% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, ou seja, neste momento já estamos crescendo a um ritmo de 2% ao ano”, comemorou.

No mercado, embora positivas, as avaliações foram mais cautelosas. José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, disse que havia grande expectativa em relação ao consumo das famílias, mas a alta observada, de 1%, foi um pouco menor do que se esperava. “Não posso dizer que isso compromete as projeções para 2018, mas provavelmente vou rever o número (para baixo)”, afirmou. O Banco Fator estima crescimento de 2,9% para o PIB de 2018.

O consumo das família também frustrou o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC),  Fábio Bentes. “Nós esperávamos 1,5% e veio só 1%, porque houve desaceleração no fim do ano”, afirmou. “Mas isso ocorreu porque a base de comparação dos dois trimestres anteriores estava inflada. Foi o período em que houve liberação de recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço”, lembrou.

 

Cautela

Para o economista da Austin Rating Wellington Ramos, a expansão de 1% do PIB ficou dentro da expectativa. “Basicamente, o setor agropecuário carregou a economia, graças à performance da safra, que, no ano passado, bateu recorde de produção”, ressaltou. O lado negativo, destacou, foi a indústria, cuja produção ficou estável em relação a 2016. “O volume de investimento do setor ainda é baixo. O empresário tem olhado com cautela o ambiente do país por conta do desequilíbrio fiscal. Além disso, com o nível baixo dos reservatórios, muitas termelétricas foram acionadas, o que encareceu o custo da energia para a indústria.”

Os serviços cresceram apenas 0,3% em 2017. Porém, a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, observou que o setor tem peso muito grande na economia brasileira — atualmente de 73% — e, por isso, deu uma contribuição significativa para o desempenho anual. A agropecuária tem peso de apenas 5,3%,  na formação do PIB, mas o crescimento excepcional do setor fez a diferença. “A contribuição da agropecuária foi impressionante. Do valor adicionado em 2017, ela contribuiu com 0,7%”, assinalou.

Pelos dados do IBGE, a geração total de riqueza totalizou R$ 6,6 trilhões em 2017 e o PIB per capita cresceu 0,2%, alcançando R$ 31.587. Rebeca Palis explicou, no entanto, que o país ainda não chegou ao patamar pré-crise, mas atingiu o nível de 2011. “Recuperamos apenas parte das duas quedas de 3,5% em 2015 e 2016”, disse.

Apesar de os investimentos terem crescido nos últimos meses de 2017, a taxa de investimento acumulada  no ano caiu para 15,6% do PIB — abaixo dos 16,1% em 2016. Foi o menor patamar desde o início da série histórica, em 1996, com a quarta redução anual consecutiva. A taxa de poupança, por sua vez, subiu para 14,8%, ante 13,9% no ano anterior.

“A construção civil teve queda de 5%. Por isso, a taxa de investimento ficou tão baixa. Mais de 50% dos investimentos são ligados à construção”, explicou Rebeca. Foi o quarto ano seguido de retração da construção civil. “Não fosse o comportamento do segmento, a indústria teria tido crescimento, em vez de ficar estável”, ressaltou.