Título: Parlamento intima Ahmadinejad
Autor: Vicentin, Carolina
Fonte: Correio Braziliense, 08/02/2012, Mundo, p. 17
Nos próximos dias, Mahmud Ahmadinejad terá de enfrentar uma sabatina no Parlamento iraniano. A intimação, expedida pela primeira vez na história da República Islâmica, colocará o presidente frente a frente com os deputados para responder a uma lista de 10 perguntas sobre a condução do governo. Embora a maioria das questões tenha relação com a profunda crise econômica instalada no país, Ahmadinajed também terá de explicar algumas das decisões que contrariaram o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. A convocatória enfraquece ainda mais o presidente e expõe a crescente disputa interna pelo poder.
A queda de braço entre Ahmadinejad e o aiatolá se desenha há cerca de um ano e meio, com uma série de episódios em que o mandatário tentou questionar a autoridade de Khamenei. Segundo a agência oficial Fars, uma das perguntas remete diretamente aos atritos: "Qual é a justificativa para sua resistência de 11 dias contra o veredicto emitido pelo líder da revolução para restabelecer o hojatoleslã Moslehi como ministro de Inteligência?", diz o texto, em referência a uma demissão determinada por Ahmadinejad e, em seguida, revogada pelo líder religioso. Outra pergunta aborda a decisão do presidente de dispensar o chanceler Manouchehr Mottaki enquanto ele estava em viagem ao Senegal.
Essa não é a primeira vez que os parlamentares tentam pressionar Ahmadinejad. Nas outras tentativas, porém, Khamenei — que tem a posição dominante no regime — não autorizou a sabatina. Antigo padrinho político do presidente, o líder supremo tem condenado as atitudes de Ahmadinejad, principalmente sua retórica relacionada à política externa. "O Majlis (Parlamento) nunca teve boa relação com Ahmadinejad. Em algumas ocasiões, os deputados até tentaram derrubar alguns ministros", lembrou a pesquisadora iraniana Haleh Esfandiari, em entrevista ao Correio. Haleh dirige o Programa para o Oriente Médio no Woodrow Wilson International Center for Scholars.
Para a especialista, o líder supremo permitiu a convocação do presidente com o objetivo de acirrar ainda mais a disputa interna. "Khamenei não gosta da ideia de destituir o presidente. Então, acho que está "treinando" o parlamento", opina. Ahmadinejad, que já foi prefeito de Teerã, conquistou forte apoio popular no interior do país, algo que preocupa os líderes religiosos. "Os linha-dura não acham que o presidente deva ter vitórias políticas. Como ele é um leigo, alguns o acusam de estar maquinando um golpe para reduzir o peso do clero (xiita) no governo", diz Estevão Martins, professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB).
O presidente tem 30 dias para comparecer à sabatina. Portanto, poderá fazê-lo antes ou depois das eleições parlamentares, marcadas para 2 de março. A conversa não deve ter nenhum efeito no resultado das urnas. É possível, ainda, que os parlamentares desistam da convocação até lá. Embora o Parlamento tenha poderes limitados no Irã, sua composição costuma refletir a relação de forças entre as diferentes facções do regime islâmico — religiosos conservadores, alinhados com Khamenei, e reformistas, além de setores próximos aos militares, que formam a base de apoio a Ahmadinejad. "Em última instância, essa intimação é um recado claro ao presidente: "Se você quiser sobreviver politicamente, alinhe-se com as nossas ideias"", comenta Estevão Martins.
EUA e Israel debatem crise A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, se reuniu ontem, em Washington, com o colega israelense, Avigdor Lieberman, cujo país evoca uma eventual intervenção militar no Irã. Os dois chefes da diplomacia se contentaram em fazer comentários sobre o tempo no início do encontro, aberto apenas para alguns fotógrafos. A reunião ocorreu a portas fechadas, na sede do Departamento de Estado. Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ordenou que seus ministros e autoridades militares parem de falar sobre a possibilidade de ataques contra instalações nucleares iranianas, logo depois de uma série de declarações alarmistas de membros de seu governo e oficiais nos últimos dias.