Correio braziliense, n. 19879, 26/10/2017. Política, p. 04.
"Estou inteiro", diz Temer
Rodolfo Costa e Renato Souza
26/10/2017
PODER EM CRISE » No dia da votação na Câmara, o presidente sente uma obstrução urológica, passa por intervenção médica e deixa o hospital caminhando
O presidente Michel Temer sentiu fisicamente o estresse provocado pela extensa rotina de negociações com os deputados para vetar na Câmara a segunda denúncia da Procuradoria-Geral da República contra ele, e deu entrada no Hospital Militar de Área de Brasília (HMAB), no Setor Militar Urbano, por problemas de obstrução urológica. Sem complicações mais graves, o peemedebista teve alta ainda ontem, às 20h10. Saiu caminhando, de cabeça em pé, ao lado da primeira-dama, Marcela Temer, assegurando estar bem. “Estou inteiro”, disse, acenando.
A complicação de saúde do presidente pegou todos de surpresa. Temer chegou às 8h50 no Palácio do Planalto. A previsão era de que, ao longo do dia, continuasse recebendo um grande número de deputados para discutir termos e apoio em torno da rejeição da denúncia. Aliados avaliam que a forma como saiu do hospital é um recado, em especial à oposição, de que permanecerá no poder, com saúde, para manter a governabilidade.
Como sinal de demonstração de que Temer está recuperado, a assessoria de imprensa do Planalto abriu o acesso a um pátio do hospital para que o presidente pudesse ser fotografado e filmado no momento em que se dirigia ao carro oficial que buscou ele e Marcela.
Rotina
Entre as 9h e as 11h30, Temer recebeu cinco deputados federais, incluindo o ministro dos Transportes, Maurício Quintella, que acabou exonerado do cargo para participar da votação na Câmara. O peemedebista ainda se reuniu com os também ministros denunciados Moreira Franco, da Secretaria-Geral da Presidência da República, e Eliseu Padilha, da Casa Civil.
Temer passou mal no fim da manhã, quando recebia o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, Sérgio Etchegoyen. O médico de plantão no Planalto foi chamado e constatou uma obstrução urológica. O profissional recomendou ao presidente que realizasse exames e tratamento adequados no HMAB, onde chegou às 12h50.
No centro médico do Exército, Temer passou por uma sondagem vesical de alívio por vídeo, entre as 15h e as 17h. A equipe médica introduziu um cateter pela uretra para drenar a urina acumulada na bexiga. O procedimento ocorreu sem imprevistos. Por volta das 17h20, ele já estava no quarto, repousando, acompanhado de Marcela. Recebeu alta às 20h.
Votação
Antes do início da votação da denúncia, quando ainda faltava quórum para iniciar o rito processual, aliados de Temer na Câmara estiveram no HMAB para prestar apoio e solidariedade ao presidente. Senadores também compareceram, como o líder do PMDB na Casa, Raimundo Lira (PB). “Eu não cheguei a vê-lo, pois estava recebendo atendimento médico. Mas, assim que cheguei, me disseram que ele estava bem e fazendo alguns procedimentos de rotina”, afirmou.
Mesmo no hospital, Temer não deixou de ser informado e de buscar informações sobre o andamento da votação da denúncia. Padilha afirmou ter conversado com o presidente por telefone e informou que a sessão da Câmara havia conseguido quórum no fim da tarde. “Ele está bem, está tranquilo, se recuperando”, disse. “Falei com ele agora há pouco e avisei que o quórum havia sido atingido”, disse.
As complicações urológicas de Temer foram semelhantes às apresentadas por Padilha no início do ano. O ministro declarou que a equipe médica que atendeu o presidente é a mesma que o socorreu. O auxiliar do peemedebista assegurou, ainda, que ele já estava se sentindo bem e tinha até a intenção de voltar ao Planalto ainda ontem. O chefe do Executivo Federal, no entanto, foi acompanhar o fim da votação no Palácio do Jaburu, por volta das 20h35.