Título: Dólar cai e fecha abaixo de R$ 1,70
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Fonte: Correio Braziliense, 29/02/2012, Economia, p. 13

BC não consegue deter queda contínua do câmbio, e governo cogita usar o Fundo Soberano

O dólar fechou ontem pela primeira vez em quatro meses abaixo de R$ 1,70, mesmo após o Banco Central ter atuado novamente no mercado comprando a moeda. A taxa de câmbio caiu 0,39% para R$ 1,698 na venda, menor patamar desde 28 de outubro do ano passado, quando encerrou a R$ 1,684.

A queda contínua do dólar e à falta de reação mais consistente às intervenções do BC já colocaram o governo em alerta, que está determinado a não deixar o câmbio abaixo de R$ 1,70. Para isso, pretende recorrer a todos os meios possíveis, inclusive ao aumento da taxação sobre a entrada de capital externo.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, afirmou ontem que existe a possibilidade de o Fundo Soberano do Brasil, criado em 2008, ser usado no mercado de câmbio para evitar mais valorizações do real frente ao dólar. Augustin ressalvou, no entanto, que, por enquanto, a política de compra de divisas continua a cargo do BC. Nas três primeiras semanas de fevereiro, o saldo cambial foi positivo em US$ 6,5 bilhões.

Em seu quinto dia seguido de atuação, o BC comprou novamente ontem dólares no mercado à vista, com taxa de corte de R$ 1,703, mas não conseguiu deter o fechamento abaixo dos R$ 1,70. O dólar em queda favorece o aumento das importações e pressiona os custos das empresas brasileiras exportadoras. A indústria química nacional já está fechando linhas de produção por causa do aumento da entrada de produtos estrangeiros. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química, o crescimento do setor deve-se aos importados e não à produção local.

"Enquanto o cenário lá fora estiver favorável ao risco, o dólar vai cair aqui", comentou um operador de câmbio de uma corretora paulista, referindo-se a indicadores que apontaram que a confiança do consumidor norte-americano subiu em fevereiro para uma máxima em um ano, a 70,8, com o otimismo em relação ao mercado de trabalho. Economistas esperavam que o índice subisse para 63,0. O dado reforçou visões de que a maior economia do mundo está resistindo aos efeitos negativos da crise de dívida na zona do euro, o que alivia preocupações com a performance da economia global.

Com os dados favoráveis da economia norte-americana, as bolsas de valores também subiram ontem em todo o mundo. O Ibovespa — cesta que reúne as ações mais negociadas no pregão brasileiro — valorizou 1,10%. A bolsa de Nova York subiu 0,18% e as europeias, entre 0,21% e 0,56%.