Título: Juros de 8% para enfrentar tsunami
Autor: Martins, Victor ; Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 09/03/2012, Economia, p. 9
Governo assegura que ação mais ousada do Banco Central para reativar a economia só está começando e estima cortes acentuados na taxa básica nos próximos meses. Mercado aposta em redução de mais 0,75 ponto em abril. Planalto quer IOF menor para créditoNotíciaGráfico
Um dia depois de o Banco Central acelerar o passo e cortar os juros em 0,75 ponto percentual, para 9,75% ao ano, o mercado refez suas projeções. Os mais otimistas já admitem a possibilidade de a taxa básica (Selic) fechar 2012 em entre 8% e 8,5%, caso se confirmem as previsões mais catastróficas levantadas pelo governo. Quem esteve ontem com a presidente Dilma Rousseff convenceu-se de que a ousadia demonstrada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) foi só o início da ação comandada pelo Palácio do Planalto para reativar o crescimento econômico do país, estimular o consumo das famílias, e impedir que o tsunami monetário provocado pelas nações ricas mate a indústria de transformação nacional. As apostas quase unânimes entre os analistas é de que, em abril, a Selic cairá mais 0,75 ponto, para 9% anuais.
Diretores do BC e técnicos do Ministério da Fazenda que participaram dos mais recentes encontros do G-20, no México, e do Banco de Compensação Internacional (BIS), o BC dos bancos centrais, na Suíça, retornaram ao Brasil convencidos de que os países ricos levarão às últimas consequências, se preciso for, as ações para salvar suas economias. Mesmo que, para isso, tenham que destruir o sistema produtivo de nações emergentes. A prioridade de Estados Unidos, Europa e Japão é manter as suas moedas desvalorizadas, por meio da injeção maciça de recursos na economia, deixar os juros próximos de zero, garantir a competitividade de seus produtos no mercado internacional e recuperar os empregos que perderam nos últimos anos, devido ao atoleiro em que se meteram.
Blindagem A ordem de Dilma, diante dessa ameaça, é tomar todas as medidas necessárias para blindar o país. A luta doméstica do Planalto, porém, é convencer o mercado de que o BC não rasgou o sistema de metas de inflação e mostrar que seus diretores, mesmo divididos, estão empenhados em salvar a economia brasileira e um dos setores chave para o Brasil, a indústria de transformação. "Se não fizermos isso, como manteremos a competitividade dos nossos produtos tanto no mercado interno, inundado de importados, quanto no externo?" questionou um integrante da equipe econômica. "Optamos por corrigir uma distorção gritante, que é a maior taxa de juros do mundo. É o melhor caminho. Não adianta partirmos diretamente para o controle de capitais com o intuito de enfrentar a guerra cambial. O custo seria alto", acrescentou.
Para os especialistas, mesmo com o comunicado seco do Copom após o anúncio da baixa da Selic, o movimento do BC evidencia a preocupação da autoridade monetária com o ritmo de crescimento do país e indica que a inflação, ao menos no curto prazo, não é motivo para alarme. "Esse é um BC mais preocupado com o comportamento da atividade econômica. É um BC que acredita que o enfraquecimento da atividade talvez seja mais prolongado do que se imaginava", disse a economista Zeina Latif. "O risco dessa estratégia é uma deterioração das expectativas de inflação para 2013", alertou Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora.
O governo não tem dúvidas de que o que está fazendo, neste momento, é o necessário. E avisa que pode reduzir o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente no crédito, de 2,5% para 2%, e estender, por mais três meses a vigência do desconto do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dado à linha branca (geladeiras, máquinas de lavar e fogões). O benefício está programado para acabar em 31 de março.
Para Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco, o BC acertou ao intensificar o afrouxamento monetário. "A taxa de juros influencia vários aspectos da economia, como o fluxo de capital, crédito, taxa de poupança e decisões de investimento. Temos que entender o momento que o mundo atravessa, com taxas de juros baixas", disse. "Estamos retomando o crescimento. Acho que o Brasil terá um bom ano, em especial no segundo semestre", frisou.
Inflação volta a subir O mercado financeiro viu com preocupação a primeira taxa de inflação de março. O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), disparou e atingiu 0,41%, quase o dobro do verificado na medição anterior (0,24%). A nova alta do custo de vida foi puxada pelos alimentos. Os preços desses produtos saíram de uma deflação de 0,02% para alta de 0,31%. Os vilões foram as hortaliças, os legumes, as frutas, as aves e os ovos. Também pesaram no bolso dos consumidores os grupos Habitação e Educação. O governo ressalta, porém, que esse movimento é passageiro. A tendência da inflação é de queda. O Banco Central aposta que os índices vão convergir para algo entre 0,37% e 0,38% ao mês. Por isso, a justificativa para ser mais ousado na redução da taxa básica de juros (Selic).