O globo, n.30842 , 15/01/2018. ECONOMIA, p.13

ANP faz 20 anos com desafio de atrair investimentos em refino e gás

RAMONA ORDOÑEZ

 

 

Diretor-geral alerta para aumento de importações e reconhece que petróleo perderá para energia limpa

 

Na transição para o consumo de fontes limpas e renováveis de energia, como a eólica e a solar, o país ainda vai consumir uma quantidade significativa de combustíveis derivados do petróleo nas próximas três ou quatro décadas. O diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Décio Oddone, estima que, se o país não construir novas refinarias, as importações atuais de derivados vão dobrar nos próximos anos, para um milhão de barris diários, a fim de atender à demanda crescente. A abertura efetiva do setor de refino, hoje com mais de 95% nas mãos da Petrobras, é um dos principais desafios na nova etapa da ANP, que completou ontem 20 anos de criação.

— Se o país não atrair investimentos para produção de combustíveis (refinarias), vai aumentar nossa dependência das importações. E teremos ainda que ampliar investimentos em logística para trazer o produto de fora — afirmou Oddone.

A ANP foi criada com o fim do monopólio do petróleo, a partir da lei nº 9.478/97, para regular e fiscalizar o setor de petróleo, desde a exploração e produção até refino, transporte e distribuição.

Nos primeiros 20 anos, houve grande avanço nas áreas de exploração e produção, com a entrada de dezenas de empresas privadas nacionais e estrangeiras nessas atividades. Mas, nas áreas de refino e gás natural, por exemplo, apesar de não ser um monopólio, a Petrobras continuou dominante. Agora, segundo Oddone, com as dificuldades financeiras da estatal, tornou-se evidente que ela continuar sendo a única a investir no setor.

O diretor-geral da ANP acredita que o setor de refino vai atrair investidores privados estrangeiros aos poucos, uma vez que dificilmente a Petrobras poderá voltar a ter preços dos combustíveis abaixo dos valores internacionais. Atualmente, a estatal já perde mercado para os importadores privados. Se represar os preços, vai perder mais mercado.

 

PRODUÇÃO CRESCENTE

Por outro lado, de acordo com Oddone, considerando todos os projetos em andamento, está prevista a entrada em operação de quase 40 novas plataformas nos próximos anos, que elevarão a produção de petróleo para cerca de 5,5 milhões de barris por dia em 2027, contra os cerca de 2,3 milhões de barris por dia atuais. E hoje o Brasil já exporta em torno de um milhão de barris por dia de petróleo.

— No período de transição em que o petróleo vai perder espaço para fontes mais limpas, se não explorarmos essa riqueza agora, qual vai ser o seu valor daqui a 20 anos, 30 anos? Tudo indica que será menor. A importância do petróleo tende a diminuir, e temos que aproveitar essa riqueza agora para desenvolver o país, gerar renda e empregos.

Oddone lembra que, apesar de ter capacidade ociosa de refino no mundo, o Brasil tem mercado consumidor e produção de petróleo crescentes, o que torna o negócio de refino atraente para investimentos.

Em 1998, o país tinha 14 bilhões de barris de petróleo e 410 bilhões de metros cúbicos de gás natural em reservas. Em dezembro de 2016, último dado disponível, eram cerca de 23 bilhões de barris de petróleo e 637 bilhões de metros cúbicos de gás (reservas totais). A produção também cresceu: a de petróleo saltou de 970 mil barris por dia em 1998 para 2,6 milhões de barris por dia de janeiro a novembro de 2017, enquanto a de gás natural passou de 30 milhões para 111 milhões de metros cúbicos por dia. O aumento se deve principalmente à descoberta do pré-sal.