Título: Garcia é enquadrado, mas os juros vão cair
Autor: Martins, Victor; Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 06/03/2012, Economia, p. 10
Presidente da República manda secretário de Relações Internacionais se calar sobre a redução na taxa Selic e diz que somente o presidente do BC pode tratar do assunto
» Apesar do pito dado pela presidente Dilma Rousseff no secretário de Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia — que anunciou uma nova queda da taxa básica de juros (Selic) para amanhã —, o Banco Central viu seu nome cair mais uma vez em descrença. Economistas graduados lembram que está virando rotina a saia justa que o governo vem imponto ao BC antes das decisões do Comitê de Política Monetária (Copom). Com isso, o mercado começa a questionar se a decisão é realmente tomada no 20º andar do prédio que sedia a autoridade monetária, em Brasília, ou se ela sai mesmo é do Palácio do Planalto.
Na bronca com Garcia, Dilma saiu em defesa do Banco Central e, mais uma vez, assegurou que, no governo, somente o presidente do BC, Alexandre Tombini, está autorizado a falar sobre a Selic. No mercado, a visão predominante é ainda a de que Tombini e os demais membro do colegiado que formam o Copom se pautam por análises técnicas para diminuir ou elevar a taxa básica de juros da economia. Porém, os vazamentos frequentes causam desconforto. Eles passam a impressão de que a definição da taxa, apesar de técnica, tem muito da política.
"Garcia deu uma declaração bastante certa. Parece que ele está sabendo a priori a decisão do Copom. Não à toa, Dilma reagiu", opinou Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria. "Esse tipo de declaração deixa a sensação de que a decisão é política e que, ao BC, só cabe comunicar o resultado", completou. À margem da confusão de competências no governo, a maioria dos analistas apostam que o BC vai imprimir um novo corte de 0,50 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic) amanhã, derrubando o índice atual 10,5% ao ano para 10%. Até poucos dias atrás, essa expectativa era praticamente unânime. Agora, porém, a situação mudou.
Apostas Segundo o economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho, aumentou a probabilidade de um corte maior, de 0,75 ponto percentual, com a taxa caindo para 9,75%. No mercado futuro, as investidores já apostam em uma queda de até 1 ponto percentual. A chance de um corte mais intenso deve-se ao forte discurso de integrantes do governo e do próprio BC, nos últimos dias, que deram garantias de que a taxa vai cair.
São variados os motivos para uma queda mais robusta, segundo Velho. Vão desde um superavit fiscal acima do esperado, passando pelos índices de custo de vida abaixo das expectativas e ritmo de crescimento da economia aquém do potencial. Nos cálculos do economista, até maio, a chance de a Selic recuar para 9,25% ao ano é de 60%. Ele não descarta, no entanto, a possibilidade de a taxa ser reduzida ainda mais no período, para 9% ao ano. As sinalizações do governo surtiram ao menos um efeito positivo: derrubaram os juros futuros, que são usados como balizadores para as operações de crédito na economia real.