Título: Prefeito beneficiado por Cachoeira
Autor: Sassine, Vinicius; Luiz, Edson
Fonte: Correio Braziliense, 06/03/2012, Política, p. 5

Além de pagar a hospedagem em Las Vegas para Geraldo Messias, bicheiro pediu a delegado da PF que não indiciasse o amigo

A viagem a Las Vegas, nos Estados Unidos, não foi o único agrado do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, ao prefeito de Águas Lindas de Goiás, Geraldo Messias (PP). O inquérito que resultou na Operação Monte Carlo, deflagrada pela Polícia Federal (PF) na semana passada, mostra que o bicheiro intermediou diretamente a favor do prefeito. Em uma das escutas telefônicas utilizadas na investigação, Cachoeira liga para o delegado Fernando Byron Filho, da PF de Anápolis (GO), e pede para que ele não indicie Geraldo Messias numa operação policial em curso. O delegado, conforme as investigações, integrava o grupo criminoso comandado pelo bicheiro e foi detido na Monte Carlo.

Águas Lindas, no Entorno, era uma das cidades mais importantes para os negócios ilícitos de Cachoeira. A PF detectou corrupção de agentes públicos no município, principalmente policiais civis e militares. Os agentes de segurança não foram os únicos corrompidos, conforme as investigações. O Correio revelou, no último domingo, que o prefeito de Águas Lindas foi presenteado com uma viagem a Las Vegas.

Embarcaram ele e a mulher, custeados por Cachoeira. Geraldo Messias admitiu que o bicheiro pagou o hotel onde ficaram, em maio de 2011. "O hotel é de uma pessoa ligada a ele", disse o prefeito, negando que a viagem tenha sido integralmente bancada por Cachoeira.

Geraldo Messias e o bicheiro se conhecem há um ano e meio, segundo informação do próprio prefeito. As conversas telefônicas degravadas para a investigação da Monte Carlo — a quebra do sigilo telefônico foi autorizada pela Justiça Federal — mostram a importância do prefeito para os negócios de Cachoeira. A cidade abrigou diversas máquinas caça-níqueis e casas de bingo do grupo criminoso. Ao delegado Fernando Byron, Cachoeira pediu que o prefeito não fosse indiciado na Operação Apate, que identificou fraudes de R$ 200 milhões na Receita Federal e envolveu diversas prefeituras.

O contato para falar sobre a Operação Apate foi feito em 27 de abril de 2011, conforme as investigações. A operação foi deflagrada 16 dias depois, em Goiás e em Minas Gerais. Não há informação no inquérito sobre o resultado do pedido feito por Cachoeira, que, na mesma conversa, foi orientado pelo delegado da PF a "proteger as máquinas em razão de possível operação relacionada à exploração de jogos". No mesmo 27 de abril, logo após a conversa com Fernando Byron, Cachoeira ligou para um de seus aliados: "Arruma R$ 15 mil aí amanhã do "F"." Segundo a investigação, "F" é o delegado Fernando Byron.

O Correio tentou falar ontem com o prefeito de Águas Lindas, mas ele não deu retorno às ligações.

Liberdade Com exceção de oito pessoas que estavam com prisão preventiva decretada, entre eles Cachoeira, todos os detidos durante a Operação Monte Carlo foram liberados na madrugada de ontem, depois de ficarem cinco dias encarcerados em diversos locais, inclusive em quartéis. Outros três suspeitos que estavam foragidos se entregaram nas Superintendências da PF em Goiânia e em Brasília, no fim de semana. Eles deverão depor e podem ser liberados, já que suas prisões foram temporárias, como outras 24 decretadas pela Justiça Federal. Cachoeira está em um presídio federal em Mossoró (RN) e, até a noite de ontem, seu advogado esperava libertá-lo por meio de habeas corpus.