Título: Mandaram sair
Autor: Vicentin, Carolina
Fonte: Correio Braziliense, 16/03/2012, Mundo, p. 16

Em resposta ao massacre de civis por sargento americano, presidente Hamid Karzai pede ao chefe do Pentágono que as tropas estrangeiras permaneçam em suas bases e completem a retirada do país até 2013. Talibãs suspendem conversações de paz

O secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, parte de Cabul após reunião com o governo afegão: chacina em Kandahar acirrou revolta contra as tropas americanas

O presidente Hamid Karzai deu ontem um recado claro a Washington: está na hora de o Afeganistão cuidar da própria segurança. Após uma reunião com o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Leon Panetta, o gabinete de Karzai emitiu um documento no qual pede para que as tropas norte-americanas deixem de fazer incursões no interior do país e se mantenham em suas bases.

O governante afegão também quer antecipar em um ano, para 2013, a transmissão de autoridade das forças estrangeiras para as tropas locais. A iniciativa é uma resposta à morte de 16 civis, no último domingo, pelas mãos de um sargento dos EUA, mas a reação imediata do Pentágono foi minimizar o impacto do anúncio. “No momento, não há razão nenhuma para pensar em mudar o cronograma (da transição), e o presidente Karzai não fez esse pedido”, afirmou um auxiliar de Panetta ao desembarcar com o secretário nos Emirados Árabes Unidos, na sequência de sua viagem à região.

Instrutor americano entrega armas às forças locais: transição acelerada (Massoud Hossaini/AFP) Instrutor americano entrega armas às forças locais: transição acelerada

Panetta viajou a Cabul para tentar conter a crise deflagrada pelo massacre em Kandahar, berço e reduto da milícia extremista. Ao sair da reunião, ele disse estar confiante de que os dois países cheguem a um acordo para a permanência de tropas norte-americanas após o término da missão. O tom da equipe de Karzai foi bem diferente. “Estamos prontos para assumir todas as responsabilidades de segurança agora”, afirmou o porta-voz Aimal Faizi, citando uma declaração do presidente a Panetta. “Preferimos que o processo seja concluído em 2013, não em 2014”, completou Faizi.

O governo afegão não tem autonomia para decidir como as forças estrangeiras devem operar. Em outras ocasiões, Karzai tentou, sem sucesso, impedir atividades dos recrutas e modificar normas de segurança em vigor, tais como a proibição da existência de empresas privadas de vigilância. Recentemente, o presidente Obama atendeu a uma das solicitações, referente à administração das cadeias onde ficam os presos afegãos. “Karzai está usando essa oportunidade (dos assassinatos) para repetir o que já vinha dizendo: que os afegãos precisam tomar conta de sua segurança”, aponta Shuja Nowaz, diretor do Centro Sul-Asiático do Conselho do Atlântico dos Estados Unidos. “Mas a realidade é que as forças afegãs não estão preparadas para isso”, ponderou o analista, em entrevista ao Correio.

A Otan e a Casa Branca não se pronunciaram oficialmente. Na quarta-feira, Obama reiterou que não pretende acelerar a retirada de suas tropas. O mesmo foi dito pelo premiê britânico, David Cameron, aliado dos EUA desde a invasão do Afeganistão, em 2001. “O assassinato dos civis em Kandahar e a decisão de tirar o autor do massacre do país mostram aos afegãos que há uma grande diferença entre a noção de justiça local e os objetivos militares dos EUA”, disse à reportagem Qamar-ul Huda, especialista em fé islâmica no United States Intitute of Peace.

Sem diálogo No mesmo dia em que o governo Obama recebeu o recado de Karzai, o Talibã anunciou a suspensão de conversações de paz preliminares com os americanos. Em um documento divulgado na internet, a milícia afirma que não é possível manter o diálogo, pois os EUA não estariam atendendo condições essenciais para o acordo. Os talibãs não mencionaram a chacina do domingo, mas, para analistas, a declaração acompanha a revolta crescente no Afeganistão. “Acredito que eles estejam aguardando para ver como a população reage e qual será a posição final de Karzai”, afirma Shuja Nowaz. Para o analista do Conselho do Atlântico, os EUA e seus aliados devem manter o cronograma original. Também é importante, defende Nowaz, pensar na situação para além das fronteiras afegãs, especialmente levando em conta a posição do Paquistão. “Se houver qualquer turbulência no Afeganistão, coisa pior acontecerá no país vizinho”, alerta.