Valor econômico, v. 17, n. 4356, 06/10/2017. Especial, p. A6.

 

 

Preocupação com mudança do clima permeia discurso de Obama

Daniela Chiaretti

06/10/2017

 

 

O ex-presidente Barack Obama falou durante uma hora sobre política como reflexo da sociedade, ondas de migrantes e tecnologia que enclausura em bolhas de informação, a necessidade de formar novas lideranças e ter igualdade de gênero, jornalismo independente e o esforço para construir a democracia, sociedades multiétnicas e a dificuldade em construir pontes entre visões de mundo diferentes. A um tema que lhe é bastante caro, ele voltou quatro vezes - a mudança do clima.

Em sua fala no evento "Cidadão Global" organizado pelo Valor com o Santander American Airlines AAdvantage Program, e no talk-show que concedeu na sequência, Obama encantou a plateia com seu entendimento do mundo contemporâneo e das mudanças globais. Mudança do clima foi tópico transversal em sua narrativa e surgiu quando o ex-presidente americano falou sobre eventos extremos, polarização ideológica, oferta de empregos e tecnologia.

Aos 15 minutos, um dos principais artífices do Acordo do Clima das Nações Unidas, o chamado "Acordo de Paris", de 2015, mencionou pela primeira vez a ameaça global. "A maioria dos nossos grandes desafios exigem cooperação internacional", disse, tateando terreno frontalmente contrário ao trilhado agora por Donald Trump, a quem não menciona e se refere apenas como "a pessoa que me sucedeu". Em discurso recente na Assembleia Geral das Nações Unidas, Trump reiterou sua narrativa truculenta de "America First", países soberanos e de oposição ao multilateralismo.

"Estamos vendo uma temporada arrasadora de furacões. Não podemos atribuir um determinado furacão à mudança do clima", ponderou, "mas a tendência aponta furacões cada vez mais fortes, temporadas de incêndios florestais mais longas, mais secas, mais inundações. Não são acidentes, é o nosso futuro se as temperaturas ao redor do mundo continuarem a subir. Isso é científico", pontuou Obama. "É o que se prevê, se as temperaturas continuarem a crescer".

Durante o seu governo, mencionou o avanço que as energias renováveis tiveram nos Estados Unidos. "Aumentamos em três vezes a energia eólica e em dez vezes a energia solar, e essas indústrias criaram muito mais empregos do que a antiga indústria do carvão." De novo, os movimentos de Obama e Trump são como água e óleo - o republicano, assim que assumiu, fez questão de posar com mineiros e relançar os EUA ao século XIX ao frisar seu desejo de fortalecer a indústria do carvão.
Obama é sutil no contraste ao seu opositor, não o menciona, não o confronta diretamente. Conquista pela postura direta e humilde, a narrativa franca, o raciocínio inteligente, o elogio a quem o escuta. "O que me dá esperança é que a América Latina está aumentando dramaticamente o uso de energia renovável. O Brasil está liderando. O trabalho em biocombustíveis aqui está sendo um exemplo para o mundo todo. E isso é algo que vocês deveriam se orgulhar e continuar a construir", sugeriu.

"Durante a minha gestão provamos que o progresso econômico e a proteção ambiental não estão em conflito, mas se complementam", emendou.

Em Paris em dezembro de 2015, na abertura da conferência da ONU que terminaria 12 dias depois com o primeiro acordo climático mundial, Obama contextualizou a desarmonia que a mudança climática provoca e "o vislumbre do destino dos nossos filhos se o clima continuar mudando mais rápido que nossas tentativas de enfrentar a questão". Na ocasião, citou o risco de existirem países submersos, cidades abandonadas, campos sem plantações, perturbações políticas desencadeando conflitos. "Esse futuro não é um futuro de economias fortes, nem um futuro no qual Estados frágeis possam encontrar alguma base de sustentação", disse, há dois anos, no Le Bourget.

Ontem, no Teatro Santander, o ex-presidente adotou tom mais ameno. "Eu não ligo se você discutir comigo dizendo 'não há nada que se pode fazer sobre mudança do clima, temos que nos adaptar'. Ou se defender que a melhor solução é aquela baseada em mercado e inovação, mas que deveríamos ter regulamentações governamentais porque, de outro modo, será muito caro", seguiu, interagindo com o interlocutor Frederic Kachar, diretor-executivo da Divisão de Publicação do Grupo Globo, do qual o Valor faz parte. "Não ligo de ter estas discussões. O que não quero são discussões onde você me diz que o planeta não está esquentando. Porque tenho 99,9% de cientistas dizendo que o planeta está esquentando. Não dá para ter discussões sobre fatos. Mas se ao menos concordarmos com eles, podemos debater como lidar com esta realidade", seguiu, inserindo o exemplo em tópico onde discutia fakenews e mídias sociais.

Quando falou sobre inovação e tecnologia, Obama voltou a usar a ameaça climática como exemplo. "É verdade que para resolver inteiramente o problema teremos que inventar fontes de baixo ou zero carbono mais baratas e eficientes", disse. "Mas mesmo com as tecnologias que temos hoje poderíamos eliminar provavelmente 35% das emissões de gases-estufa sem ter nenhum impacto no nosso padrão de vida. A razão pela qual não fazemos isso é porque nossos políticos bloqueiam. Ou a opinião pública não sabe quão significativa a mudança do clima pode vir a ser".

De fato. A EPA, segundo o "The New York Times", vai divulgar proposta para rejeitar o Clean Power Plan, eixo central da política doméstica climática de Obama, que limita emissões de usinas térmicas. O Plano está suspenso por decisão da corte de apelações do Distrito de Columbia. O prazo para a Environmental Protection Agency, a agência ambiental americana, se manifestar expira estes dias. A EPA, comandada por Scott Pruitt, defensor dos combustíveis fósseis, deve rejeitar o plano e iniciar audiências públicas para mudar o curso das coisas.